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Opinião: Regressar a Mounier

30 de outubro de 2021 às 12 h22

Em tempos de absoluta anemia ideológica, é necessário regressar a Emmanuel Mounier e, em particular, à sua obra chave, escrita em 1949, O Personalismo.

Mounier parte de uma noção de pessoa próxima da de Gabriel Marcel: pessoa é o não-inventariável, o que nunca se repete. Toda a pessoa tem uma significação tal, que o lugar que ocupa no universo das pessoas não pode ser preenchido por outra qualquer.

A clara distinção entre personalismo e individualismo é central no seu pensamento. Se a primeira preocupação do individualismo é centrar o indivíduo sobre si mesmo, a primeira preocupação do personalismo é descentrá-lo. O ser é ser com, ou ser para, donde, a pessoa não existe senão no movimento para os outros, não se conhece senão pelos outros, não se encontra senão nos outros.

Se a pessoa só existe na medida em que existe para os outros, “ser é amar”, e o outro é reduzido a objeto quando é tratado como ausente. Daí resulta que a solidão não é um dado da condição humana, mas escolha nossa: fazemo-nos sós.

O personalismo, assim concebido, é adversário do individualismo e do liberalismo. Para Mounier, o Estado liberal, embora professando um personalismo moral, de raiz kantiana, e político, ao gosto burguês, lança a condição concreta das massas urbanas na escravidão social, económica e política. O excesso e a absolutização da vida de trabalho impedem o conhecimento de a vida em poesia ser o aspeto central da vida pessoal, devendo contar para o pão quotidiano. Daí a célebre máxima, “o Estado existe para o homem, não o homem para o Estado”.

O personalismo de Mounier é realista, está longe de ser um espiritualismo e opõe-se ao idealismo. Uma subjetividade pura é impensável: Para a pessoa é necessidade elementar o dispor dum certo número de objetos. Não é possível ser sem ter, sendo a propriedade, tal como a intimidade, exigência concreta da pessoa, sob pena de uma “existência contra a natureza”, que leva ao inumano.

O personalismo de Mounier é, de igual modo, um universalismo. A afirmação da unidade da humanidade no espaço e no tempo, postulada pelo cristianismo, pelo cosmopolitismo do século XVIII e pelo marxismo, é uma linha de força do personalismo: Ao postular a ideia de um género humano com uma história e destino coletivos, donde não pode ser separado nenhum destino individual, o personalismo opõe-se ao racismo, à eugenia, ao desprezo pelo estrangeiro, à negação do adversário político, à constituição de homens à parte.

A crítica personalista encontra-se em vários pontos com a análise marxista. Não apenas o marxismo pensa bem quando diz que o fim da miséria material é o fim duma alienação, como quando afirma ser missão do homem elevar a dignidade das coisas humanizando a natureza. Neste ponto, Mounier considera o marxismo próximo do cristianismo. Secundado mais tarde por Hannah Arendt, considera, ainda, ser decisiva a crítica marxista à democracia formal, por os direitos concedidos pelo Estado Liberal aos cidadãos estarem, para a maior parte deles, alienados na sua existência económica e social.

Para Mounier, finalmente, o personalismo não posterga a Revolução. A revolta em tempo de domesticação, a resistência à opressão, a recusa face ao aviltamento são privilégios inalienáveis da pessoa, seu último recurso “quando o mundo se levanta contra o seu reino”. Para o personalismo “revolucionário quer dizer simplesmente, mas rigorosamente, que a desordem deste século é demasiado profunda e demasiado obstinada para ser eliminada sem uma mudança de velocidade, uma reorganização de estruturas, uma profunda revisão de valores, uma renovação das elites”.

 

Manuel Castelo Branco escreve ao sábado, mensalmente

1 Comentário

  1. Loureno diz:

    Questo signore si dedica alla riflessione sistematica del pensiero cattolico dell' Ottocento e del Novecento. In particolare è un atento studioso di E. Mounier. A questo signore trarrebbe vantaggio se si permettesse di leggere attentamente Ludwig Feuerbach. Vi assicuro che non perderebbe la sua fede… 🙂

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