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A diferença é a alma de Macau

16 de abril de 2026 às 10 h15

São dezanove horas quando entro no prédio. Corro para o elevador, carregada com as tarefas do dia e com a intensidade do que para trás deixei, quando vejo o meu vizinho do décimo nono andar, um senhor chinês nos seus setenta e muitos, a segurar-me a porta com um sorriso. “Obrigada”, sorrio eu em português. “M sai”, respondeu ele em cantonês, que significa “de nada”. Depois ficámos os dois em silêncio, fixados nos números a subir. Nenhum de nós sentiu necessidade de preencher o vazio com conversa forçada. Era suficiente partilharmos o mesmo espaço. Constato com um sorriso: “Isto é tolerância que funciona sem precisar de discursos bonitos.”

Em Macau, a diferença não é um problema, é a alma da região. Por aqui convivem macaenses que se deliciam com minchi, filipinos que cantam karaoke aos domingos, chineses com sapateiras recheadas de calçado à porta de casa, trabalhadores do interior da China que fazem as refeições diretamente do taparuere, portugueses que ainda pedem pastel de nata no café, e expatriados de diversas latitudes. Em Macau ninguém exige que o outro seja “igual” para ser aceite: a igualdade não significa uniformidade, mas respeito pelo direito de ser diferente sem incomodar o espaço comum.

Entristece-me profundamente saber que em Portugal há uma fatia significativa de portugueses que se sente ameaçada pela diferença, que quer um país onde o vizinho seja, acima de tudo, igual a eles. Igual na língua, nos costumes, nas experiências e na forma de ver o mundo. Igual na memória coletiva, no medo do futuro, no ódio pelo diferente e na raiva contra quem vem de fora.

Eu arrisco-me a dizer que entendo de onde vem o medo. Vivemos tempos difíceis: migrações, crises económicas, guerras, e uma identidade cultural que parece dissolver-se nas redes sociais. Quando o vizinho tem outra língua materna, tem hábitos alimentares diferentes ou simplesmente reza a outro deus, o primeiro instinto é transformar a diferença em ameaça. Ao invés de o foco ser a questão de “como mitigar as diferenças?” deveria centrar-se em “como convivemos com as diferenças?”. Quer-se integração que se pareça demasiado com assimilação.

A experiência de ser emigrante ensina-me que a tolerância não nasce de frases feitas, palavras bonitas ou leis que obrigam a “celebrar a diferença”. Nasce de empatia e de pequenos gestos: segurar a porta, sorrir mesmo sem entender a língua, aceitar que o cheiro do caril de gambas do vizinho da frente e o peixe seco na varanda do vizinho de baixo fazem parte da magia de viver numa comunidade rica em experiências e em respeito pelo próximo. A diferença aqui não é tolerada como obrigação, mas reconhecida como riqueza. Porque, no fim do dia, todos queremos a mesma coisa: um lugar onde possamos ser nós mesmos sem medo.

O elevador chegou ao meu andar. Disse “até amanhã” com um sorriso. O vizinho gesticulou um aceno enquanto a porta fechava. Nenhum de nós mudou o outro. E foi exatamente por isso que o dia terminou bem.

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