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Suspender o PDM para retomar Coimbra

28 de abril de 2026 às 09 h30

Há um instinto muito coimbrinha de olhar para qualquer mudança com desconfiança. Conheço-o bem: cresci com ele. É o instinto de quem ama a cidade e receia que cada decisão lhe deixe uma cicatriz. Mas há outro mais perigoso: confundir prudência com paralisia. A suspensão parcial do PDM pertence ao primeiro campo: o da prudência que age. E alinha-se com o que as melhores cidades do mundo já fazem.

 

Densificar as frentes ribeirinhas e o corredor do Metrobus, majorar em 30% a área para habitação acessível, rever regras de estacionamento desajustadas: não é invenção local. É o manual da OCDE, do BEI e do Parlamento Europeu. Em Auckland, seis anos após a reforma de 2016, as rendas estavam 28% abaixo do contrafactual. Em Minneapolis, o stock habitacional cresceu 12% entre 2017 e 2022 enquanto as rendas subiam 1%.

Onde se densifica com critério, junto ao transporte público, a habitação torna-se acessível. Em fevereiro, o Parlamento Europeu pediu, preto no branco, revisão do zonamento e reclassificação de solo. O PDM de Coimbra tem quase três décadas.

A suspensão parcial, por dois anos prorrogáveis, é a ponte transitória que Bruxelas recomenda. Quanto ao estacionamento: Zurique tem um teto máximo desde 1989, e a quota do automóvel caiu de 40% para 29%. Em Coimbra, 31% dos processos urbanísticos de 2025 são pedidos de dispensa.

A regra não funciona, gera exceções. As objeções merecem resposta séria: as redes de água e saneamento aguentam? Como evitar torres descontextualizadas? Os críticos serão úteis se saírem do bloqueio para entrarem na construção. Vivo na Suíça há mais de 5 anos. Olho para Zurique, Zug, Genebra: cidades que nunca deixaram de se reinventar porque não tiveram medo de tocar nas regras quando estas deixaram de servir. Coimbra tem tudo para oferecer mais. A suspensão do PDM não é o plano definitivo. É um sinal, o de que a cidade decidiu, pela primeira vez em muito tempo, não ficar à espera.

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