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A obra de um clube não é de caridade ocasional, mas de construção sustentada

01 de agosto de 2026 às 09 h00

Há momentos na vida de uma pessoa, e na vida de uma instituição, que carregam, em si mesmos, o peso da história e a leveza da esperança. Este é um desses momentos.

Assumir a presidência de um clube como o Rotary Club de Coimbra, fundado sobre alicerces de serviço, camaradagem e ética, não é um ato de poder. É um ato de serviço. É um ato de fé, fé nos valores que nos trouxeram até aqui, fé nos companheiros que nos rodeiam e fé naquilo que, juntos, somos capazes de fazer.
Recebo um clube vivo, dinâmico e comprometido com os valores mais elevados do movimento rotário.

E é com essa consciência, entre a gratidão pelo que foi feito e a determinação pelo que há ainda a fazer, que aqui estou.
Permitam-me que, antes de falar do futuro, vos convide a um breve regresso às origens. Porque o presente só tem sentido quando conhecemos as raízes que o alimentam.

Era o ano de 1905. Um jovem advogado de Chicago, chamado Paul Percy Harris, caminhava pelas ruas da cidade com um amigo, e ficou impressionado com algo aparentemente simples: a forma como esse amigo cumprimentava os comerciantes, os conhecia pelo nome, sabia das suas famílias, partilhava os seus sonhos. Havia naquele gesto quotidiano uma humanidade que a grande cidade muitas vezes sufoca.

Paul Harris perguntou-se então: «Porque não reunir essas pessoas? Se tantos outros anseiam por companheirismo como eu, algo de bom pode nascer disso.»
E nasceu! No dia 23 de fevereiro de 1905, quatro homens reuniram-se num escritório no centro de Chicago — Paul Harris, Gustavus Loehr, Silvester Schiele e Hiram Shorey — e fundaram aquilo que viria a ser o Rotary Club. Uma ideia simples, mas de uma profundidade extraordinária: reunir profissionais de diferentes áreas, criar laços verdadeiros, e colocar esse capital humano ao serviço da comunidade.

O Rotary não nasceu de um manifesto político. Não nasceu de uma ideologia. Nasceu de uma necessidade humana tão antiga quanto o próprio homem: a necessidade de pertencer, de servir e de construir algo que perdure para além de si mesmo.
Mais de um século depois, essa semente ainda germina. E germina aqui, em Coimbra.
Falar de impacto duradouro em Coimbra é quase uma redundância.

Coimbra é, em si mesma, um monumento à permanência do conhecimento. A Universidade de Coimbra, a mais antiga de Portugal, uma das mais antigas do mundo ocidental, classificada como Património Mundial da UNESCO, é a prova viva de que a educação, quando serve verdadeiramente a humanidade, não tem prazo de validade.

As vozes que ecoaram nas salas dos Gerais, as disputas filosóficas no Paço das Escolas, os laboratórios onde se fez ciência de vanguarda, os poetas que sobre as margens do Mondego escreveram os seus versos, tudo isso são camadas de impacto duradouro que esta cidade foi depositando ao longo de séculos.
Há nesta cidade uma cultura que valoriza a excelência sem perder a humanidade. Uma cultura que celebra o saber, mas que nunca se esquece dos mais vulneráveis. Uma cultura que olha para o mundo com curiosidade e abertura, mas que permanece profundamente enraizada na sua identidade.

É nessa tradição que o nosso clube existe. É nessa tradição que queremos continuar a inscrever o nome do Rotary Club de Coimbra.
O Presidente Internacional do Rotary para 2026–2027 lança-nos um desafio que ressoa de forma especial nesta cidade: «Crie Impacto Duradouro».
Não nos pede ações espetaculares que se apagam com o fim do mandato.

Pede-nos pontes que permaneçam de pé mesmo quando já não somos nós a atravessá-las. Pede-nos projetos que continuem a dar frutos quando outros lhes derem continuidade. Pede-nos, em suma, que a nossa passagem por este clube deixe a comunidade um pouco melhor do que a encontrámos.
Este lema faz-me lembrar uma passagem do que Eurico Branco Ribeiro — doutrinador do Rotary Club de São Paulo — disse a propósito do serviço rotário: que a obra de um clube não é de caridade ocasional, mas de construção sustentada, de intervenção que se projeta para além do transitório e possui alcance social incontestável. O impacto duradouro não é apenas uma ambição. É a medida mais exigente e mais honesta do serviço que prestamos.
E é com essa exigência que queremos construir o nosso ano.O nosso compromisso para este ano assenta em quatro pilares, quatro vetores de ação que, juntos, formam uma resposta concreta ao desafio do impacto duradouro.

O Primeiro Pilar: A Educação e a Juventude
Coimbra é, por excelência, a cidade do conhecimento. A Fundação Rotária Portuguesa, que orgulhosamente tem a sua sede na nossa cidade, é uma das expressões mais belas do que o movimento rotário pode fazer quando une esforços e vontades.
Neste mandato, reforçaremos o nosso compromisso com as bolsas de estudo. Porque investir num jovem hoje é investir numa comunidade melhor amanhã. Este é um impacto que o tempo não apaga.

O Segundo Pilar: A Saúde — A Nossa Ação Contra a Anemia
O Rotary International foi ao mundo combater a poliomielite e quase a erradicou. Esta é, talvez, a maior proeza de saúde pública alguma vez levada a cabo por uma organização não governamental na história da humanidade. Esse espírito de intervenção em saúde é parte do nosso ADN.
Neste ano rotário, o Rotary Clube de Coimbra assume o compromisso de desenvolver uma ação concreta e estruturada de combate à anemia na nossa comunidade numa vertente social e de literacia.

A anemia é uma das condições de saúde mais prevalentes a nível mundial e em Portugal. Afeta crianças em idade escolar comprometendo o seu desenvolvimento cognitivo, mulheres em idade fértil, populações idosas e grupos socialmente vulneráveis. É muitas vezes silenciosa. Muitas vezes invisível. E é, em grande parte, prevenível e tratável. A anemia não escolhe idade, não escolhe condição social. Mas nós escolhemos não fechar os olhos perante ela. E é com esse compromisso ético que avançamos.

O Terceiro Pilar: A Solidariedade Social
Vivemos num tempo em que a desigualdade cresce silenciosamente nas cidades. Há franjas da nossa comunidade que necessitam de atenção, de presença, de dignidade.
Manteremos a atenção do nosso clube voltada para os mais vulneráveis, reforçando parcerias existentes e procurando novas formas de serviço que respondam às necessidades reais de quem mais precisa. Porque o rotário que fecha os olhos ao sofrimento do seu próximo deixou de ser verdadeiramente rotário. O sofrimento não pode ficar sozinho.

O Quarto Pilar: A Excelência como Espelho da Cidade
Coimbra produz, em cada geração, homens e mulheres que honram esta cidade no mundo. Cientistas, médicos, juristas, artistas, empreendedores, educadores, pessoas que, através do seu trabalho diário, encarnam o ideal rotário de pensar no outro antes de pensar em si próprio. O nosso clube deve ser um espaço onde a excelência é celebrada e onde os valores éticos têm nome e rosto

Nenhum presidente governa sozinho. Nenhum projeto nasce do esforço de um único par de mãos. O Rotary é, pela sua própria natureza, uma força coletiva. Uma força que só existe quando cada um de nós a alimenta com o seu entusiasmo, a sua experiência, o seu tempo e a sua dedicação.
Que o companheirismo, esse valor fundacional que Paul Harris colocou no coração do movimento, seja o cimento que une todas as nossas diferenças numa só vontade de servir.

Os desafios que enfrentamos, a anemia, a pobreza, a exclusão, a perda de valores éticos na vida pública, não cabem nas fronteiras de um único clube. Pertencem a todos nós. Por isso, o nosso convite à parceria é genuíno e permanente. O mais importante é ser rotário só depois vem a pertença a um clube por isso a soma das nossas forças é sempre mai00or que as nossas partes individuais.

O impacto duradouro que o nosso Presidente Internacional nos pede só se alcança quando os clubes trabalham em rede, com coesão, com generosidade e com a humildade de saber que o propósito é maior do que o prestígio de qualquer instituição em particular.
Ser rotário, ser membro de um clube como o Rotary Club de Coimbra, não é um título. Não é uma distinção honorífica que se ostenta em cartão de visita. É uma forma de estar no mundo.

Somos antes de mais uma comunidade aberta a todos aqueles que partilham uma convicção fundamental: que podemos, e que devemos, deixar o mundo melhor do que o encontrámos.
Vamos trabalhar com a cabeça e com o coração. Vamos servir a nossa comunidade com rigor e com ternura. Vamos construir, juntos, um impacto que dure, porque tudo o que se faz com genuína vontade de servir tem a imortalidade discreta das coisas que realmente importam.

 

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