Opinião: Entre os pingos da chuva
O Bloco de Esquerda está perante um novo desafio, mais um “teste do algodão”. Depois de nas últimas eleições ter perdido 14 dos seus 19 deputados (a somar à perda de 8 dos seus 12 vereadores nas autárquicas de 2021 ), o Bloco está perante uma redução drástica dos seus meios financeiros, pelo que a sua direcção, de acordo com notícia do jornal Observador, decidiu encerrar sedes e fazer despedimentos.
Não há muito tempo, a líder do Bloco de Esquerda admitiu que Robles se envolveu num negócio “contrário ao que defendemos”, pelo que o bloquista Ricardo Robles abandonou o cargo de vereador na Câmara Municipal de Lisboa. Há dias, soube-se que a deputada Mariana Mortágua, apesar de exercer o seu mandato em regime de exclusividade, acumula o vencimento parlamentar com um salário pago por participar no programa televisivo Linhas Vermelhas, da SIC Notícias, o que é ilegal em face do disposto no n.º 6 do art.º 16.º do Estatuto Remuneratório dos Titulares de Cargos Políticos. Esta ilegalidade, que absurdamente contraria o que o Bloco defende, anda a tentar passar entre os pingos da chuva. Agora vêm os despedimentos.
No tempo do líder Francisco Louçã, quando a Páginas Amarelas fez um despedimento colectivo de 70 dos seus 420 funcionários para fazer face à diminuição de receitas, o Bloco opôs-se “em nome da sensatez, economia e respeito pelas pessoas”, que afirmava estarem a ser tratadas “como se fossem lixo, peças, dispensáveis, quando pelo contrário são estes trabalhadores que têm feito o país”, tal como suponho que os trabalhadores do Bloco também sejam o seu alicerce.
Para quem não se recorda, o Bloco fez cair o governo porque o PS não aceitou as suas propostas orçamentais, entre as quais se encontrava o aumento das indemnizações por despedimento, que queriam que fosse de 20 dias por ano de trabalho, em substituição dos actuais 12. Quanto irá o Bloco pagar aos trabalhadores que vai despedir? E quais vai escolher?
Com certeza que o procedimento será o do despedimento colectivo, o mesmo procedimento que motivou a chamada de urgência ao Parlamento, do presidente do Santander, onde ouviu a acusação do deputado bloquista José Soeiro de estar a “utilizar sobretudo o argumento do despedimento colectivo para um processo inaudito de chantagem e de pressão, de assédio moral, para as pessoas aceitarem rescisões por mútuo acordo.” Estarão os trabalhadores do Bloco dispostos a chegar a acordo, ou irão seguir as palavras de Catarina Martins, que aquando do despedimento colectivo da Altice, salientou “a coragem extraordinária” do grupo de trabalhadores em “recusar estes despedimentos e de os contestar em tribunal”, mais adiantando que a sua “expectativa é que possam ganhar os seus processos porque têm razão”.
O Bloco irá, “obviamente”, pedir a fiscalização da ACT e do governo e “nunca” irá recorrer à ajuda de voluntários, pois tal também seria contra o que defendem, ou pelo menos defendiam em 2016. Nesse ano, a líder do Bloco afirmou que o trabalho voluntário “é uma treta” e que só deveria existir quando houvesse pleno emprego em Portugal, concluindo que “até lá, só contratos de trabalho.”

