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Opinião: “Coimbra – a cidade que marca mas não tem marca”

27 de outubro de 2021 às 12 h10
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Coimbra é uma cidade que marca todos os que por cá passam. Esta afirmação é facilmente demonstrada pelos inúmeros testemunhos que nos chegam desde há vários séculos, de poetas, músicos, médicos, juristas, entre muitos outros. De todos estes relatos, o que mais me emociona, ainda e sempre, é o canto da Balada da Despedida do 5º Ano Jurídico 88/89 “…Segredos desta cidade, Levo comigo pra vida”.
Como é então possível que uma cidade a que ninguém fica indiferente não tenha nos últimos anos conseguido afirmar a sua marca?
A resposta é simples: Coimbra vive uma crise de identidade.
Por cada pessoa a quem se pergunta “o que é Coimbra?” obtém-se uma resposta diferente: “a cidade dos estudantes”, “a capital da saúde”, a “cidade do conhecimento”, a “capital do amor e da saudade”, etc. E todas estas respostas são, hoje em dia, passíveis de serem facilmente refutadas. Coimbra é tudo isto. E ao tentar ser tudo isto, sem um fio condutor, não se consegue afirmar como nada disto.
Esta confusão identitária não acontece em outras cidades e regiões. Nos casos de “a cidade invicta”, “o berço da nação”, “a vila natal” e “aldeia mais portuguesa de Portugal”, todos nós reconhecemos imediatamente a que local se referem.
Então porque se verifica em Coimbra uma tão profunda crise de identidade?
A principal causa reside no facto de, nas últimas décadas, várias outras cidades, capitais de distrito e não só, terem recebido avultados investimentos públicos que as equiparam com valências que eram únicas de Coimbra (a par de Lisboa e Porto) e que constituíam a sua identidade distinta.
Ao longo dessas décadas, sucessivos governos investiram na criação de universidades e institutos politécnicos, na construção de hospitais, etc. Estes novos investimentos permitiram um justo desenvolvimento, melhoria de qualidade de vida, e fixação de população em várias cidades. Inevitavelmente, contribuíram para esbater os fatores que diferenciavam a marca Coimbra.
Por outro lado, nestas mesmas décadas, os investimentos públicos que Coimbra recebeu, ou que está planeado receber, foram essencialmente “de substituição” (com ligeira melhoria face ao existente) e não acrescentaram novas valências – o novo hospital pediátrico veio substituir o antigo, os novos pólos da universidade vieram substituir os antigos edifícios na alta, os autocarros elétricos MetroBus virão substituir o antigo ramal ferroviário da Lousã, a nova maternidade virá substituir as duas vetustas maternidades, etc.
Ainda pior do que este investimento “de substituição” (os economistas terão com certeza uma melhor palavra para esta definição), é o efetivo e inexplicável desinvestimento e eliminação de massa crítica – no Hospital dos Covões, etc.
Como rara exceção a este “Coimbricídio” (termo cunhado há muito tempo por Vital Moreira), saliento o investimento na criação do Instituto Pedro Nunes (IPN), por iniciativa da Universidade de Coimbra. Este investimento veio, de facto, gerar uma nova valência na cidade (e pioneira em Portugal!). Por sua vez, num ciclo virtuoso, o IPN apoia o desenvolvimento de empresas de base tecnológica, responsáveis já por cerca de 2000 empregos altamente qualificados e que já devolveram ao Estado em impostos um montante muito superior ao investido na criação do IPN. Este exemplo demonstra cabalmente a capacidade que Coimbra e as suas gentes têm em se regenerar.
A abertura do novo ciclo autárquico oferece agora uma nova oportunidade para repensar a cidade e a região. Neste contexto, um objetivo fundamental terá de ser o de promover a redescoberta da identidade de Coimbra.
Coimbra possui três pilares identitários absolutamente distintos e inimitáveis, que a seguir sintetizo e que irei elaborar com maior profundidade no artigo do próximo mês:
• Cidade Pioneira: 1ª capital do Reino de Portugal, 1ª Universidade, 1º Inventor português, 1os transplantes hepático e renal, 1º computador português, 1ª incubadora de base tecnológica, 1º “unicórnio” tecnológico verdadeiramente português, etc. Que outra cidade se pode afirmar como estando na vanguarda ao longo de tantos séculos de história?
• Lusofonia: Coimbra deu uma contribuição única para a criação do “mundo português” e tem, por isso, uma responsabilidade histórica. Que outra cidade tem esta tão intrínseca ligação aos países e comunidades de língua oficial portuguesa?
• Sustentabilidade: o binómio urbano-rural, ao longo do Rio Mondego, torna Coimbra única. Que outro município com a dimensão de Coimbra possui tamanha massa crítica na economia do conhecimento e, ao mesmo tempo, produção agrícola de relevo?
Esta reinvenção da identidade e da marca Coimbra só terá sucesso se traduzir a conjugação das várias perspetivas de Coimbra (acima elencadas), se for alicerçada naquilo que ainda são os fatores absolutamente diferenciadores face a cidades comparáveis, e se houver capacidade para alinhar as estratégias e as ações das forças vivas da cidade.

Pode ler a opinião de João Bigotte na edição impressa e digital do DIÁRIO AS BEIRAS

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