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As famílias falharam-lhes, mas nós também

26 de junho de 2026 às 10 h45

Com um intervalo de poucos dias, duas crianças, de sete e quatro anos, juntaram-se à longa lista de vítimas mortais de violência doméstica em Portugal. Lara e Kiara, duas meninas a quem não conseguimos chegar a tempo, ambas mortas às mãos de quem tinha obrigação de as proteger, usadas como objeto de vingança numa guerra doentia.


A família de Kiara tinha um histórico de violência doméstica identificado pelas autoridades há já dois anos, quando a mãe apresentou uma primeira queixa, que acabaria por ser arquivada. Naquele dia terrível, uma nova discussão espoletou a tragédia. Já era de madrugada quando o pai pegou na menina ao colo e se atirou, com ela, de uma janela do 8º andar onde viviam. Quando a ajuda chegou já não havia nada a fazer. Uns dias antes, a mãe tinha sido chamada à esquadra da PSP de Santarém, para ser ouvida no âmbito de uma nova queixa que estava em investigação. O caso foi encerrado da pior forma: com a morte de dois dos envolvidos. Um deles era uma menina de 4 anos, arrastada para a morte pelo próprio pai.


Lara vivia com o pai e a madrasta e sua vida não era muito diferente da de Kiara. O dia-a-dia em casa era marcado por discussões, brigas e violência. A guarda da menina tinha sido retirada pela CPCJ à mãe, que tinha um histórico de depressões sucessivas. Lara estava entregue aos cuidados do pai e dos avós. A mãe estava a tentar recuperar a guarda, mas os processos são complexos e morosos. A relação entre o pai e a madrasta era conflituosa e, por aqueles dias, uma discussão mais acesa fez nascer naquela mulher uma ideia louca: vingar-se do pai, através da menina. Foi o que fez, no dia em que foi buscar Lara à escola e a levou até uma floresta de onde ela nunca mais sairia.

Os nomes de Lara e de Kiara juntam-se ao de Jéssica, a menina de três anos espancada até à morte, pela ama e pela sua família, depois de um longo histórico de maus-tratos; ao de Valentina, a menina de nove anos agredida até à morte pelo pai e pela madrasta; ao de Joana, a menina algarvia cujo corpo nunca apareceu, morta às mãos da mãe e do tio. A todos estes nomes juntam-se muitos outros. Alguns marcados por uma violência que não chega às últimas consequências, mas destrói infâncias e deixa marcas para a vida inteira. Nomes que não associamos a rostos, porque as suas fotografias não abrem os telejornais, vidas que nunca chegamos a conhecer. Crianças às quais chegamos tarde demais ou às quais a ajuda nunca chega.


Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), a violência doméstica é a forma de violência mais prevalente contra crianças e jovens. Nos últimos quatro anos, a APAV apoiou mais de 13.000 crianças. Em quase 40% das situações o agressor era a mãe ou o pai da vítima. A Lara, a Kiara, a Jéssica, a Valentina e a Joana encontraram o inferno onde deviam ter um núcleo de amor, segurança e proteção. Estas crianças tiveram azar, porque nasceram no sítio errado. E tiveram azar, porque nós não as vimos. Quem nasce do lado errado da sorte, só tem uma hipótese: ser visto por quem pode ajudar. As famílias falharam-lhes, mas nós também. Quando não conseguimos identificar, ajudar e proteger as crianças em risco, estamos a falhar a quem não tem mais nenhuma hipótese.
Quantas destas histórias poderiam ter tido um final diferente se alguém tivesse atuado mais depressa? Nenhuma criança deveria depender da sorte para estar em segurança. E enquanto continuarmos a permitir que estas infâncias se percam entre burocracias, silêncios e sinais ignorados, estamos a falhar no que de mais elementar se exige à sociedade: proteger quem não se consegue proteger sozinho.

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