O maior hospital do país devia ser o centro de saúde
Sempre que se discute o futuro do SNS, o debate acaba quase inevitavelmente nos hospitais. Fala-se de urgências sobrelotadas, listas de espera, falta de profissionais e de tantos outros problemas que dominam diariamente a agenda mediática e política. Não é difícil perceber porquê, já que os hospitais representam a face mais visível do sistema e concentram os casos de maior gravidade. Mas é precisamente nessa centralidade que reside um dos maiores equívocos na forma como pensamos a saúde.
Um bom sistema de saúde não se mede pelo número de hospitais que constrói, mas pela capacidade de fazer com que os cidadãos precisem cada vez menos deles. De Alma-Ata a Astana, o consenso internacional nunca mudou: os sistemas mais eficientes, equitativos e sustentáveis constroem-se sobre cuidados de saúde primários fortes.
Os hospitais são o nível mais complexo, diferenciado e dispendioso do sistema de saúde, devendo, por isso, dedicar-se àquilo que só eles podem fazer e não a problemas que poderiam ser prevenidos, diagnosticados ou resolvidos na comunidade.
Contudo, continuamos a olhar para os cuidados de saúde primários quase exclusivamente como o local da consulta médica, da vacinação, da vigilância da doença crónica e da referenciação hospitalar. Tudo isso continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente para responder aos desafios do século XXI.
Vivemos mais anos, convivemos com mais doenças crónicas e dispomos de tecnologias de diagnóstico cada vez mais acessíveis. Por isso, os cuidados de saúde primários não podem continuar a ser apenas a porta de entrada do SNS; têm de se transformar no lugar onde a maioria dos problemas de saúde é prevenida, diagnosticada e resolvida.
Isso exige investir na promoção e na literacia da saúde desde a infância, reforçar a capacidade diagnóstica e terapêutica dos cuidados primários e integrar os profissionais das tecnologias da saúde em equipas verdadeiramente multidisciplinares, capazes de prevenir, diagnosticar, tratar e acompanhar as pessoas na sua comunidade.
Há, porém, um custo de que quase nunca se fala: o das deslocações. Em 2024, o Estado gastou cerca de 212 milhões de euros no transporte não urgente de doentes, mais do dobro do montante gasto em 2014. Mas essa é apenas a parte visível da fatura. A ela acrescem milhões de horas de trabalho perdidas por doentes e familiares, produtividade perdida em viagens e tempos de espera, custos suportados por famílias e empresas e uma pressão desnecessária sobre os hospitais.
Também o ambiente paga a fatura de um SNS excessivamente centralizado. Cada deslocação evitável aumenta o consumo de combustível, as emissões de gases com efeito de estufa e a pegada de carbono. A resposta mais sustentável, em saúde, é muitas vezes a que evita que a viagem aconteça.
Chegou o momento de mudar a forma como avaliamos os cuidados de saúde primários. Mais do que contar consultas, importa medir as referenciações hospitalares evitadas, os exames realizados na comunidade, o tempo devolvido aos cidadãos e, sobretudo, a capacidade de manter as pessoas saudáveis e autónomas durante mais tempo.
O futuro do SNS depende da coragem de colocar os cuidados de saúde primários no verdadeiro centro do sistema de saúde.
É por tudo isto que o maior hospital do país devia ser o centro de saúde.

