O fumo que já apagámos continua a respirar-se
Os efeitos dos incêndios nos pulmões não terminam quando as chamas se apagam.
Todos os anos, mal chega o verão, Portugal arde. As notícias contam os hectares queimados, os meios mobilizados, as famílias retiradas de casa. Depois de o fogo ser dominado, o assunto sai das primeiras páginas. Mas para quem mora nas zonas afetadas, uma parte do problema fica a pairar no ar durante muito tempo depois de as chamas se apagarem.
Isto porque o fumo dos incêndios florestais transporta partículas muito finas, as chamadas PM2,5, pequenas o suficiente para ultrapassar as defesas das vias respiratórias e chegar aos alvéolos, a zona mais profunda dos pulmões. Trabalhos científicos recentes têm mostrado que estas partículas, quando resultam da queima de vegetação, provocam uma resposta inflamatória e oxidativa mais intensa do que a poluição urbana a que estamos habituados. Ou seja, não é apenas o fumo mas sim um agressor respiratório com características próprias, e que merece ser levado a sério.
Os efeitos não se resumem a tossir ou sentir os olhos a arder no dia do incêndio. Nos últimos dois anos, vários estudos documentaram agravamentos de asma e de doença pulmonar obstrutiva crónica nos dias e semanas seguintes à exposição, com mais idas às urgências e mais internamentos. Como a exposição se repete ano após ano, como tem vindo a acontecer em Portugal, o resultado é a perda mais rápida de função pulmonar e risco maior de mortalidade, mesmo em quem nunca teve doença respiratória. Grupos que precisam de cuidado redobrado: crianças, com os pulmões ainda a formar-se; pessoas com mais de 65 anos; grávidas; e quem já tem diagnóstico de asma, DPOC ou doença cardiovascular. Nestes casos, uma exposição que pareceria inofensiva num adulto saudável pode ser suficiente para desencadear uma crise.
Na prática, o que podemos fazer? Se houver fumo no ar, mesmo a alguns quilómetros das chamas, devemos manter portas e janelas fechadas, evitar exercício ao ar livre e usar máscara, idealmente FFP2 se for preciso sair de casa. Não é preciso ver labaredas para que o ar esteja a fazer mal: hoje há aplicações de qualidade do ar em qualquer telemóvel, e ajudam a decidir se vale a pena sair de casa ou não.
Se a tosse persistir depois de alguns dias, se surgir falta de ar fora do habitual, pieira, ou se os sintomas piorarem em quem já tem uma doença respiratória conhecida, sobretudo se os sintomas aparecerem ou se mantiverem depois de vários dias de exposição ao fumo, vale a pena procurar avaliação médica.
Os incêndios costumam medir-se em hectares ardidos e em meios no terreno. Mas a saúde respiratória mede-se muitas vezes em semanas de recuperação que passam despercebidas. Talvez valha a pena começar a prestar-lhe atenção!

