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Sempre ausente

04 de agosto de 2026 às 19 h00

Billy Bob Thornton celebra 71 anos de vida a 4 de agosto de 2026. O ator sentou-se na cadeira de realização para nos brindar com “Sling Blade”, também escrito e protagonizado por si.

Após o colosso realizador Billy Wilder ter avisado um jovem Thornton de ser demasiado feio, sugerindo-lhe escrever um guião sobre alguém em quem pudesse explorar as suas feições menos perfeitas, nasceu Sling Blade. Este trabalho independente veio revelar ao mundo uma espécie de Sylvester Stallone (que com Rocky silenciou o meio artístico de Hollywood) refinado, qual Hércules escalado do submundo da desvantagem das aparências.

Karl Childers é o homem menos atraente do mundo: a voz como se tivesse entornado uma garrafa de bagaço pela garganta abaixo, os lábios puxados adiante como por um anzol, o olhar pregado ao chão, como por um martelo moral que o priva de se sentir igual aos outros, capaz de os enfrentar nos olhos. Assim, é de imediato considerado retardado por quem se cruza com ele.

Depois de uma longa passagem num hospício, Karl é devolvido ao mundo livre, ainda que contra a sua vontade. Durante o tempo em que estivera preso, sentenciado por ter assassinado a própria mãe e o jovem com quem ela se envolvia, terá desaprendido a viver. Para mais, já não tinha sido dotado à partida de grande capacidade de expressão além das respostas monossilábicas, reféns de um dicionário reduzido, e algumas ideias repetidas sem lógica aparente. E por isso Karl, neste mundo que sente demasiado grande, não tem por onde se encaixar.

 

“Billy Bob Thornton faz lembrar aquele amigo esquisito de que todos gostamos. Sling Blade, obra que escreveu, realizou e protagonizou, é o culminar da sua esquisitice genial”.

 

É justo alegar que representar deficiências, seja do foro físico ou do mental, é mais fácil do que explorar pessoas com mentes mais sãs e complexas. No entanto, Karl é a prova de que perfurar nas profundezas de um ser à primeira vista simples pode ser revigorante e fornecer-nos novas maneiras de tomar os outros: faz-nos rever se a nossa crueldade animal, transversal a todos nós, continua interina, e ponderar se temos andado de braço dado com a aceitação para com o outro, como dita a lei do bom senso.

A consciência é um lago pantanoso. Sling Blade provoca-nos ainda a questionar, através de Karl, se fazemos o que fazemos com clareza de mente e espírito, ou se andamos apenas distraídos; leva-nos a ponderar se, tivéssemos nós oportunidade de repetir as nossas ações, mesmo sem saber a priori das consequências, as faríamos de igual modo. No entanto, nunca chegamos a saber se o silêncio que envolve esta personagem curiosa é o resultado de um pensamento contínuo profundo, ou se de uma existência apagada da realidade, sempre ausente de tudo o que a rodeia.

A resolução do filme dá-nos a receita para cozinhar a resposta à questão imposta de início: deve a maldade ser considerada se for inconsciente? Como qualquer obra importante, apesar de fornecer os mesmos ingredientes a cada espectador, Sling Blade permite a cada um cozinhar à sua maneira.

 

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