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Os nomes da coragem

22 de julho de 2026 às 13 h01

A Odisseia, de Christopher Nolan, estreou a 16 de julho em Portugal. A adaptação do poema homérico é a 13.ª longa-metragem do realizador.

Melhor do que ir ao cinema e ver um filme sozinho, no conforto da solidão e na ilusão de terem concebido aquilo tudo só para nós, é chegar em cima da hora e encontrar uma sala cheia de gente. Ao contrário do desejável, nos dias que correm apenas em blockbusters como A Odisseia, de Christopher Nolan, a lotação atinge esse nível que nos garante o contrário da suposta tendência: o cinema ainda não morreu.

Faço parte da grande fatia da população que ainda não leu a Odisseia de Homero. É evidente que todos já ouvimos falar, pelo menos, de algumas das suas partes e personagens mais marcantes, ou até de alguns dos pormenores que, sendo passageiros na história, nos ficaram a residir na memória coletiva. Falo, por exemplo, do eterno tear de Penélope (Anne Hathaway), que a mesma destrói todas as noites para nunca terminar, sinal último da esperança sem fim. É por isso que, para tudo isto continuar a chegar até nós, esta adaptação é necessária.

 

“Como muitos filmes de guerra (apesar de A Odisseia ser bem mais do que isso), este é um filme de homens sobre uma mulher”

 

Ulisses (Matt Damon), depois da Guerra de Tróia, procura o caminho de regresso para casa, para junto da sua esposa e do seu filho, tema conhecido na Grécia antiga por nostos. Christopher Nolan, que adaptou o poema épico a solo, vai dando saltos no tempo e no lugar enquanto nos leva a acompanhar Ulisses e a sua tripulação nessa tarefa hercúlea. Apesar de estas técnicas nos deixarem um tanto perdidos no início, aproveitam a nossa desorientação propositada para, como um mensageiro confiável, nos manter presos àquela narrativa de salvação.

Sendo este um texto fundador do pensamento literário do Ocidente, é natural que resida nele boa parte da base dos nossos valores e crenças, apesar de todas as alterações que, com os séculos, sucederam; basta pensarmos na quantidade de deuses em que aquelas pessoas acreditavam, e na quantidade em que acreditamos hoje.

Por tudo o que sei, esta tanto pode ser a adaptação mais fiel ao épico feita até hoje como apenas uma irrelevante tentativa de assassinato da obra de Homero. A verdade é que Christopher Nolan, depois de ter andado tantos anos a escalar até ao olimpo da sétima arte, em que sem contestação se encontra, não precisava de nada disto. E, embora este trabalho seja um ato de grande coragem, talvez por isso tenha chegado onde ainda não tinha conseguido.

 

“A verdade é que Christopher Nolan, depois de ter andado tantos anos a escalar até ao olimpo da sétima arte, em que sem contestação se encontra, não precisava de nada disto”

 

Reparem na forma despreocupada com que conta a história, ao contrário de noutras obras em que teimava em explicar e expor demasiado, pecando por excesso, ou em inserir à força uma certa comédia desnecessária e fora de lugar; esta naturalidade é a receita para a quantidade absurda de cenas memoráveis que neste filme produziu. Sintam como o jogo de som, depois de ter sido tão criticado em Tenet, é parte da própria história, em particular no canto das sereias; e como isso justifica o cinema. Contemplem como os cenários, por serem simples, vencem pela concentração nos símbolos importantes e, antes disso, nos deixam explorar as expressões das personagens, representadas por esta equipa de magníficos atores (como aconteceu em Oppenheimer). Ouçam a banda sonora, inserida de forma quase clínica apenas onde faria falta, ao nível a que nos tem habituado noutros trabalhos seus. Isto tudo acontece quando o cineasta se larga a si próprio e realiza o filme da forma que o filme exige, e não da maneira que o artista quererá.

A Odisseia podia ter outras três horas que não seria mais longo. É inacreditável como Nolan consegue, sem falar de sexo, drogas ou álcool, estar três horas a denunciar o maior vício humano: a autodestruição. Sempre achei que, de uma maneira ou de outra, este realizador acabava por se tornar redundante nas suas obras, fosse pelas tais explicações exaustivas, fosse por optar por finais que agradassem as audiências de forma facilitista (refiro-me, em específico, a Interstellar), mesmo que não tivessem sido os inicialmente arquitetados, mas sim fruto da pressão das produtoras. Sempre apostei que nunca teria coragem para, contra o sistema, fazer um filme que nos deixasse aflitos por existirmos, como o conseguiu tantas vezes Stanley Kubrick, cineasta que Nolan recorrentemente replica.

Penso que, ao enfrentar o seu maior problema, Sir Christopher Nolan terá finalmente chegado à solução. E por isso, para mim, a partir de hoje a coragem leva consigo mais um nome.

 

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