Da eleição do Reitor
Nos últimos tempos gerou-se uma pequena novela em Coimbra com uma variedade de opiniões tecidas nos fóruns públicos em reacção da decisão do Conselho Geral de manter os actuais moldes de eleição do Reitor, em oposição à adopção do frenesim “RJIESítico”.
Evoca-se uma redução da “legitimidade eleitoral da eleição”, mas nada retira maior legitimidade à eleição do cargo de Reitor do que a sua futricisação (eleição por leigos) ou degeneração num concurso de popularidade. Antes do preconceito raivoso cismar a opinião do leitor (e a minha caixa de comentários) adianto que reconheço que esta opinião possa ser impopular, e até minoritária, mas não contra-natura.
A eleição do Reitor de uma Universidade (com um contexto argumentativo reforçado para a de Coimbra) é uma eleição elitista e meritocrática por inerência. O Reitor está no topo da pirâmide social de qualquer civilização: Este representa o conhecimento acumulado e adquirido, não só do indivíduo em questão, mas da instituição que representa e da nação que se insere. Mas, contrariamente a um cargo de governação política que está sujeito a deveres de representatividade da rés pública e de um programa, um Reitor está sujeito unicamente à Lei Natural da Scientia, que é por definição, supra-política e anti-democrática (não é por haver mais gente a argumentar a platitude da Terra que a faz de facto).
Naturalmente que um Reitor está sujeito a condicionantes de índole política (orçamentos, infraestructuras, mediatismo, etc), mas o seu dever é precisamente o de superar estes constrangimentos em favor do Progresso Científico. Neste contexto, a Política tem a função de ferramenta que se tira da caixa para um fim, e não de ser a caixa em si, que limita as ferramentas disponíveis.
Já desde a Grécia Antiga onde o bosque sagrado de doze oliveiras de Akademos gerou o conceito de Academia, que Aristóteles arguiu a favor da phrónesis para dizer que quem não sabe deve abster de decidir, ficando a observar até adquirir mais conhecimento (derivando o que hoje conhecemos como “prudência”). É de facto uma das lacunas das democracias modernas que o parvo da aldeia tenha o mesmo voto que o Reitor. Mas se isso é um mal menor aceite para alcançar os benefícios gerais da sociedade hodierna, tal não é directamente replicável num contexto onde o Conhecimento impera sobre a Multitude (ou assim devia).
Séculos de discussão e derivação destes princípios levaram à consagração do cargo de Reitor como sendo um primus inter pares, ou seja, o primeiro entre iguais. E é aqui onde um xenobionte, na forma do RJIES e das suas várias iterações, veio contaminar a evolução filosófica do Ensino Científico com a penumbra do viés político. Ao forçar a abertura da eleição para quase toda a sociedade, deixamos de eleger o primeiro entre iguais para eleger o primeiro da urna de likes. O escrutínio prudente providenciado por uma Assembleia Electiva é substituído pela oclocracia influenciável: Deixa-se de avaliar currículos e contribuições, para avaliar “clout” social e jogo de cintura político. A ilusão de uma “legitimidade eleitoral reforçada” é assim suplantada por uma redução da qualidade da decisão e dos próprios candidatos, levando inadvertidamente a uma fracturação e polarização do tecido social da Instituição.
O que é de estranhar particularmente, é que muitas das opiniões favoráveis ao novo RJIES venham dos próprios Lentes, que aplaudem o Governo que lhes retira a prudência do seu poder de decisão em favorecimento de quem está há menos de três anos, ou, no extremo oposto, quem já não está cá de todo. Bem, isto seria de facto estranho, não fosse uma observação eficaz indicar que tais opiniões estão muitas vezes assentes ou numa cunha política de bastidor ou num cavalo na corrida…!
Aqui chegada a leitura, prevejo que muitos assumam então que sou favorável ao método de eleição pelo Conselho Geral. Efectivamente, nesta eleição colegial existe uma certa garantia da ethos para a escolha do Sancto Lente, sendo manifestamente superior à eleição popular. No entanto, são reconhecidas as suas limitações e vulnerabilidades, nomeadamente ao nível da permeabilidade a interesses externos e políticos, fruto do número baixo de eleitores, como também ao limitado peso científico. Curiosamente, a solução para as lacunas do Conselho Geral está no passado da nossa Universidade, em concreto nos anos 90, onde era preparada uma Assembleia com mais de 200 membros, todos oriundos de diferentes patamares da hierarquia Académica e por instâncias diferentes, com o dever único de escrutinar, avaliar e decidir o mérito dos candidatos.
Este aplicação prática de bom-senso, nem tanto nem tão pouco, foi, como já devem adivinhar, atropelada pela intromissão do RJIES que insiste em colocar o Ensino Superior todo no mesmo saco (com Politécnicos e tudo!), deixando lá longe as Virtudes Atenienses, possivelmente num armazém fechado juntamente com as folhas perdidas dos exames nacionais…!

