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Eles eram o casal perfeito

14 de julho de 2026 às 19 h00

Ingmar Bergman nasceu a 14 de julho de 1918. Se fosse vivo, o realizador sueco responsável por “Cenas da Vida Conjugal” completaria 108 anos.

 

É bom para a nossa fibra moral vermos as profundezas do inferno. É Ingmar Bergman quem o garante, algures no arranque de Cenas da Vida Conjugal: o cineasta faz uso de um amigo do casal protagonista para nos avisar de que, a qualquer momento, o inferno pode surgir, seja no chão onde se abre uma fenda, seja no telhado que rui à força das chamas que o consomem.

Cenas da Vida Conjugal cronica a vida a dois de Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson). Numa sequência de cenas longas, nada acontece mesmo. Porém chegamos ao fim e já tudo aconteceu, tal qual a vida.

Ao longo da narrativa apercebemo-nos do egoísmo dos seres humanos, fruto da incapacidade de amar alguém. As personagens vão-se apresentando cada vez mais cinzentas, adormecidas, sem aptidão para reagir aos estímulos que na infância as faziam vibrar. Sempre cercadas por uma parede gigante feita dos seus próprios problemas e ânsias, nem reparam que os outros estão a mudar.

 

“Bergman trouxe a vida para o cinema: captou a simplicidade com que ela pode acontecer, mas não ignorou a dureza com que ela nos consegue atingir”

 

Sobretudo foi pioneiro em deixar os rodriguinhos de lado, típicos das obras de arte censuradas pelas normas morais que a sociedade mais tradicional impunha, mantendo sempre afiado o machado com que nos abre a ferida que nos permite sentir a realidade como ela pode ser. Sendo a vida talhada de altos e baixos, também as suas histórias andam nessa montanha-russa.

Neste filme o realizador sueco questiona a monogamia, explora a possibilidade da traição, evidencia a ironia da passagem do tempo nas pessoas uma vez detentoras da moral que, sem se impor como deus ex machina, lhes rouba. Cenas da Vida Conjugal funciona como um despertador que toca um som estridente para nos acordar e recordar de que andamos demasiado distraídos da nossa finitude.

Ao longo das quase três horas de filme, Marianne e Johan servem de prova para a ideia de que mesmo o casal mais perfeito pode falir. Tenho fé de que as relações ficam mais intensas quanto mais estão em vias de terminar, o que poderia servir para as salvar. Mas um soslaio a mais para um terceiro, um desabafo não contado na hora certa, uma discussão interrompida pela chegada dos filhos à mesa para jantar podem deitar tudo a perder.

A certa altura ouvi o escritor Mário Cláudio a assumir, numa entrevista conduzida por Ana Sousa Dias, que escrevia para adultos e apenas para eles; não lhe interessava falar para os imaturos e irresponsáveis. Diria que o mesmo se aplica a Ingmar Bergman e aos seus filmes profundos, lentos e acutilantes, repletos de conversas difíceis, pois uma coisa é certa quando entramos neles: ter vivido ajudará a compreendê-los, uma vez que Bergman sabe mais sobre nós do que poderemos sequer imaginar.

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