Da ciência à ação: cores, polinizadores e o 25 de Abril
Com o aproximar do 25 de Abril, há uma imagem que volta a destacar-se: o vermelho dos cravos. Uma cor que marcou um momento histórico e que se tornou símbolo de liberdade. Mas a cor não é apenas símbolo. Na natureza, a cor tem uma função.
As flores não são coloridas por acaso. As cores, os padrões e até os contrastes invisíveis ao olho humano funcionam como sinais. Servem para atrair polinizadores, orientar o seu comportamento e aumentar a eficiência da polinização. Diferentes cores e odores atraem diferentes polinizadores. É assim que se garante algo essencial: a reprodução das plantas.
Abelhas, borboletas, moscas-das-flores, escaravelhos e traças são alguns dos polinizadores essenciais ao funcionamento dos ecossistemas que muitas vezes passem despercebidos. Mais de um terço das culturas agrícolas depende da polinização; sem ela, muitas plantas não produzem frutos nem sementes. Mas o seu papel vai muito além da agricultura: asseguram a reprodução de grande parte das plantas silvestres, que sustentam habitats, alimentam outros organismos e mantêm cadeias tróficas contribuindo para a estabilidade dos ecossistemas.
Sem polinizadores, os sistemas colapsam e tornam-se mais frágeis, menos resilientes. E nós fazemos parte do sistema. As causas do seu declínio são conhecidas: perda de habitat, uso intensivo de pesticidas, simplificação da paisagem e alterações climáticas.O tema não é novo, mas a ciência tem vindo a revisitá-lo de forma mais rigorosa e integrada, quantificando impactos e apoiando decisões informadas. O verdadeiro desafio não é a falta de informação. É a distância entre o que sabemos e o que fazemos.
Portugal tem agora um Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, publicado em Diário da República a 31 de março de 2026 (Despacho n.º 4214/2026). A notícia é, à partida, positiva, mas levanta uma questão: será mais um plano, ou uma mudança real? Está alinhado com as políticas europeias, que reconhecem o declínio dos polinizadores como um risco crítico. O problema não está na ambição, mas na implementação, onde muitas politicas europeias falham. O plano propõe medidas conhecidas: restaurar habitats, reduzir pressões, monitorizar e sensibilizar.
O desafio não está no que fazer, mas na escala, na integração e na capacidade de transformar boas práticas em mudança estrutural . Isto exige políticas coerentes, planeamento, menos medidas avulso e a mobilização da sociedade. Há ainda uma questão que desassossega: um plano com financiamento de 2 anos responde a um problema estrutural? A proteção de polinizadores exige continuidade, monitorização e capacidade de ajustar medidas a longo prazo. Que indicadores serão usados? O número de jardins? O número de placas? Ou a recuperação efetiva das populações e das funções ecológicas?
Os jardins para polinizadores não são novidade. Muitas vezes resumem-se a pequenas ilhas de plantas com placas apelativas. Podem sensibilizar e criar refúgios locais, mas não compensam paisagens extensivas e homogéneas, sejam rurais ou urbanas, nem substituem práticas que promovam diversidade.
Os polinizadores precisam de paisagens que funcionem e de território. Não faz sentido promover espaços simbólicos enquanto se mantêm práticas que contribuem para o problema. Os polinizadores, tal como a sociedade, não vivem de intenções. Vivem de diversidade, de continuidade, de sistemas que funcionam e da liberdade de existir.
E talvez a melhor forma de honrar o simbolismo do 25 de Abril seja esta: perceber que, também na natureza, a liberdade não é decorativa, depende de condições reais para existir e constrói-se ao longo do tempo. Já agora, no dia 22 de abril comemora-se o Dia Mundial da Terra: aproveite, pare, observe e respeite. Vamos cuidar desta casa que é de todos!


