“Conservacão”
Tenho escrito muito sobre as ameaças ambientais que sobre nós pairam e sobre a inércia humana que não as aplaca. Hoje apeteceu-me escolher algo positivo. E o que há que mais anime um ser humano deprimido? A presença do seu mais antigo e leal amigo Canis familiaris.
Portanto vamos falar de cães e de conservação da natureza. Ou seja, já perceberam que o título não é uma gralha do jornal, é uma tentativa de graça juntando homenagem ao grande ilustrador e caricaturista Tóssan e ao seu livro Câo Pêndio.
Todos conhecemos a importância dos cães em diversas actividades, mais tradicionais umas como a caça e o pastoreio, mais inovadoras outras, como a detecção de explosivos ou droga ou mesmo contrabando.
Mas para além dessas valências o precioso nariz do cão a par da sua inteligência e dedicação ao ser humano tornam-no um parceiro insubstituível de muitos projectos de conservação. Desde logo na detecção de sinais de espécies em estudo ou dos próprios animais ou plantas.
Apesar de querer trazer novidades não é nada recente, já pelos anos 1870 os neo-zelandeses usaram cães para indicarem kiwis (não o fruto, a ave) para serem resgatados de zonas onde tinham sido introduzidos predadores invasores que os estavam a dizimar.
Uma das vantagens é a sua capacidade de descortinar diferenças que os técnicos humanos só conseguem com apoio laboratorial e DNA, por exemplo entre dejectos de lontra e de visão-americano (espécie invasora). O que é de grande utilidade onde ambos convivem para se saber os impactos que o invasor apresenta.
No mais recente censo nacional do lobo, por exemplo, houve a utilização de cães treinados. Também utilizados para a detecção de cadáveres de morcegos e aves de rapina em campos de aerogeradores, que permitirão uma melhor gestão ou monitorização.
Não só aumentam imenso o número de detecções, comparado com equipas humanas, como são muito mais rápidos e abrangem áreas maiores.
Noutros casos não seria mesmo possível a realização do estudo com um número de amostras significativas. Um exemplo é a recolha de dejectos de cetáceos em águas abertas, os dejectos flutuam mas não é fácil vê-los. Um cão treinado, na proa do bote vai dando sinal ao estilo do jogo do «quente e frio» orientando a navegação para o «prémio».
E depois há o oposto, o identificar espécies invasoras e pragas. Algumas que são pouco visíveis, ou que só são identificáveis quando têm flôr. Pois um cão treinado pode detectar essa planta invasora em qualquer altura, permitindo uma reacção mais rápida o que é essencial no sucesso.
E em crime ambiental, quer na detecção de animais, plantas, ovos, ou partes (marfins, penas) que se tenta introduzir ilegalmente no país. E em casos de suspeitas de envenenamento de animais. No âmbito do programa Antídoto Portugal (tema que dará uma coluna) há binómios da GNR capacitados para detectar veneno no terreno, permitindo uma acção preventiva em situações sensíveis mas também de apoio à investigação criminal.
Ou seja, tem um problema? Há sempre uma «solucão».