O valor da esperança
O mundo perdeu Robin Williams a 11 de agosto de 2014. Entre outras prestações icónicas, o ator e comediante vestiu o roupão do drama para estrelar “O Clube dos Poetas Mortos”.
John Keating (Robin Williams) é o professor que todos gostávamos de ter tido: alguém que acredita em nós. Não por sermos o Todd (Ethan Hawke) ou o Neil (Robert Sean Leonard), mas porque reside nessa figura a crença rara e inoxidável nas gerações vindouras, algo que apenas com muita vontade e esperança na humanidade resiste à passagem do tempo, sempre imune às condições do mundo.
Quando assistimos a O Clube dos Poetas Mortos somos prendados com o verdadeiro poder do cinema, essa capacidade de inspirar até o maior dos desmotivados, de acordar algo que adormeceu em nós. Como um comando viciado, a fita sobrevive à força de repetição e consegue, dotada dos seus braços fantásticos capazes de atravessar ecrãs, abanar-nos de forma diferente a cada visualização, acrescentando novas correntes à nossa maneira de pensar, depositando em nós mais coragem para realizar aquilo com que sempre sonhámos.
Para nos convencer, a história revolve em volta de um clube clandestino fundado por um conjunto de antigos alunos, entre eles o mais recente docente Keating, num colégio interno para rapazes. Para se ser falado nas reuniões secretas é preciso estar-se morto; para se poder falar, claro está, tem de se estar mais vivo do que nunca.

“Quando assistimos a O Clube dos Poetas Mortos somos prendados com o verdadeiro poder do cinema, essa capacidade de inspirar até o maior dos desmotivados, de acordar algo que adormeceu em nós”
Não menosprezando as outras instâncias da vida, o professor Keating, ao descobrir o interesse regenerado daqueles alunos na tamanha ousadia que é o pensamento livre, encoraja aquela turma mais atenta do que nunca através de uma grupeta muito específica de distinguidos: os poetas são essa espécie rara que, apesar de já terem morrido, jamais deixarão de viver. Ser poeta é comprar a eternidade prometida através das palavras.
Os alunos passam assim a acreditar que podem deixar uma marca no mundo, resistente a toda a estirpe de tempestades. Para isso terão apenas de ousar viver, partindo da premissa carpe diem, que significa aproveitar o dia.
Pelo que tenho visto, algumas pessoas mais velhas por vezes esquecem-se de que é suposto os mais novos chegarem mais longe do que eles conseguiram; é a lei da vida: fazem dos comportamentos menos maduros de quem veio depois o álibi perfeito para poderem enfeitar o olhar e o espírito com a poeira dos avós, ignorando a fatia de gente da sua idade que também desprezam pela mesma razão. E assim vivem, escudados num posto que pela desculpa da idade fingem erguer.
Desconfio que isto aconteça porque, mais experientes do que todos, os mais velhos já viram que os anos podem deitar sonhos por terra e por isso não querem, como tiveram o luxo de lhes ter acontecido, ver os mais novos falhar.
Mas o tempo é o professor comum: é ele quem ensina que há poucas coisas melhores do que podermos errar para depois conseguirmos seguir em frente, de rota um bocadinho mais afinada, apesar disso um bocadinho mais tolos por sabermos mais do que ontem.