Monólogo
“Heart of the Beast” está em exibição nos cinemas portugueses desde 19 de setembro de 2026. O filme, protagonizado por Brad Pitt, narra uma aventura de sobrevivência acompanhada por um pastor alemão.
Vivemos toda a nossa existência consciente pendurados a uma corrente de pensamento que, por muito que nos vão tentando convencer do contrário, é única e irrepetível. Apenas em raros e escolhidos momentos deixamos os outros aceder-lhe; e, mesmo assim, desconfio de que nunca o permitimos na totalidade. A vivência é, portanto, como que um monólogo interno em que os outros participam, ou em que se impõem, muitas das vezes silenciando o que íamos dizer, mas nunca obliterando o que seremos capazes de pensar.
Pouco mais é preciso saber sobre Heart of the Beast do que o seguinte: tem Brad Pitt no papel de um veterano de guerra traumatizado; tem um cão chamado Odin, que o acompanhou nessa desventura; e conta a nova aventura em que ambos se enfiaram, em desafiando da natureza, que os entorna numa luta incessante pela sobrevivência após um acidente de avioneta quase fatal.
Mais do que sugerir a dificuldade de um cão viver de forma digna, feliz e completa sem o ser humano, Heart of the Beast reflete sobre a necessidade de pessoas como James Belmont (Pitt) se fazerem acompanhar de um animal para saberem para onde ir. E fá-lo de forma pausada, paciente e detalhada; sem as tretas do costume. Diria até que se comporta de forma inversa ao que manda a lei dos filmes de ação, o que o torna num trabalho mais contemplativo e, lá para o final, até mais espiritual.
“Depois de questionar se funcionaria com outro figurão, concluo que o maior defeito do filme é também a sua maior virtude: a superestrela Brad Pitt”

Boa parte dos filmes apenas mostra quem somos; Heart of the Beast dá-nos tempo para pensarmos em nós. Não apenas por ser a obra indicada para quem não gosta de legendas, mas porque as poucas falas ditas são dirigidas quase sempre a Odin, que apesar de as perceber pela mecânica dos sons e pela entoação com que são ditas, não lhes consegue naturalmente seguir a semiótica. E assim o veterano vai-nos deixando entrar na mente de alguém que apenas quer escapar à solidão de quem sobreviver, enquanto comprova que o cão pode mesmo ser o melhor amigo do homem.
Depois de questionar se funcionaria com outro figurão, concluo que o maior defeito do filme é também a sua maior virtude: a superestrela Brad Pitt. Apesar de ser o ator que já todos sabemos que é, para quem nem um grande ecrã é suficiente, o astro não rouba o show à contracena, permitindo ao pastor alemão Odin ombrear com outros cães tornados celebridades pelo cinema, tais como Snoop (Anatomia de uma Queda), Jack (O Artista) ou Toto (O Feiticeiro de Oz).
Há cerca de uma quinzena de anos tive aquela que terá sido a experiência fundadora do meu amor por cinema: assisti, em sala, ao filme 127 Horas. Não devia ter mais do que 14 anos quando aconteceu. Apesar de já me achar adulto, não passava de uma criança com a mania das grandezas que, perante uma odisseia contra a natureza como é esse filme de Danny Boyle, tremelicava como bambus ao vento.

Recordo a minha mãe, que contra a sua vontade me acompanhava, querer abandonar a sala na célebre cena em que o protagonista corta o próprio braço com recurso a uma espécie de canivete. Ainda assim não o fez, para me permitir ficar ali, a crescer um pouco mais. Não foi preciso falarmos para sabermos o que o outro queria.
Melhor do que crescermos é sabermos que fomos pequenos. Heart of the Beast, mais do que as outras coisas boas que tem, como a simplicidade na forma de ser e a humildade para não apontar a mais do que isso, devolveu-me a essa idade, nem que por uma hora e tal. Talvez desta vez tenha tido um bocadinho menos de medo, mas uma coisa é certa: senti semelhante dose de excitação.