Quando o amor acaba
Paris, Texas estreou-se em Portugal a 25 de outubro de 1984. A obra icónica do alemão Wim Wenders foi coroada com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
A mais recente Nobel de Literatura, Anne Carson, aconselha a que comecemos pelo meio. O realizador de Paris, Texas, Wim Wenders, fê-lo. E eu também o vou fazer.
Travis navega contra a infinidade do deserto. Como um navio apagado no silêncio da noite, confunde-se com as ondas ardentes que o lavam. Apesar da multiplicidade de cores e do excesso de salinidade na saturação, não existe a magia do costume. Só solidão.
Engravatado sob um boné vermelho, segue o caminho dos amantes perdidos: apenas eles sabem para onde têm de ir. Quem está bem não precisa de se mexer. Travis não consegue parar.
Dá umas trincas nuns cubos de gelo, segundo a lógica para se refrescar. A água naquele formato não chega para o animar. Tanto que entretanto cai para o lado, num saloon abandonado.
Acaba numa maca, ladeado por um médico a quem não lhe apetece responder.
“E se não tivesse de responder a mais ninguém?”
Em vez de acabar, começa de novo, de novo pelo mesmo caminho.
Até que a marcha é interrompida pelo irmão. Apesar do laço de afinidade, continua sem abrir a boca. Ser irmão não será o suficiente?
Durante alguns dias ser irmão não chega para mais do que ter voado meio mundo para ir resgatar Travis. Um bocado da América é meio mundo, não é? Os dois seguem agora à boleia de um carro alugado.
– Mas vais dizer-me o que se passa contigo, ou não? Estou a começar a ficar farto desse mistério todo.
Sem coragem nem desejo de voar, o carro continua a ser o reboque improvisado. Daquela ponta do Deserto de Mojave a Los Angeles seria um tirinho pelo ar, mas vão ser dois dias a mais na estrada. As palavras surgem. Porém, ainda sem significado.
“Wim Wenders explora as emoções no silêncio. Filma pinturas estáticas, cujos pormenores entretanto gritam ao longe, em miniatura daquela perspectiva”

Wim Wenders explora as emoções no silêncio. Filma pinturas estáticas, cujos pormenores entretanto gritam ao longe, em miniatura daquela perspectiva. Quando aproximados tornam-se em cinema, resultado do grande risco que se toma ao gesticular um pequeno movimento.
Quando Wim nos leva de carro, chegamos a um lugar nunca antes visto: o reverso da nossa imaginação. Dali não mais queremos partir. Encontramos o filho, Hunter, que ficou ao cuidado do irmão. Perseguimos o amor, Jane, até sermos travados por um vidro espelhado que não os deixa comunicar. Conseguimos vê-la, mas ela não sabe quem está deste lado: nós somos os espectadores. E, como inspirados para chegar mais além, regressamos à pergunta inicial:
– O que se passa contigo, Travis?
Mas Wim Wenders, apesar do que já nos ofereceu, continua sem responder.
(Os melhores mistérios são aqueles que ficam por resolver.)

