Iñárritu ou (O Profeta)
Digger está em exibição em Portugal desde 1 de outubro de 2026. A obra de Alejandro G. Iñárritu, estrelada por Tom Cruise, é a oitava longa-metragem do cineasta mexicano.
À primeira vista, Digger parece um filme sobre uma cambada de políticos que se senta no topo da sua torre de marfim a assistir ao desabamento do mundo; todavia, como nunca sabemos o que esperar de Alejandro G. Iñárritu, acaba por ser uma coisa bem diferente: sem querer desvendar demasiado, posso adiantar que resulta do cavar da dura crosta do cinema meta, que gosta e portanto pode fazer pouco de si mesmo, e que neste caso só descansa quando encontra as pepitas docinhas que refletem a luz com que o cineautor mexicano filmou Birdman, no ido e glorioso ano de 2014.
Em Digger ninguém pede licença para entrar. Sejam reuniões políticas de importância mundial, sejam encontros pessoais de índole medicinal (as personagens estão todas envelhecidas, como a esticar a vida até onde ela já não faz sentido), todos os momentos, interrompidos sabe-se lá por quem, demovem-nos de querer continuar a pertencer à espécie humana. Há algo de profético na forma como o realizador e argumentista põe estas pessoas execráveis a comunicar, como se elas existissem na pele dos atores políticos que todos os dias vemos a despejar palavras ocas na televisão. Floresce, disso, a desconfiança de que os desenvolvimentos da narrativa, por mais esdrúxulos que possam parecer, um dia poderão também existir na pele da realidade.
Digger Rockwell (Tom Cruise, naquela que é a performance da sua carreira) é dono e senhor de uma plataforma offshore na Gronelândia que, por negligência para com as normas de segurança ambiental, se separou da ilha-mãe. Tal desmembramento sucedeu de uma explosão resultante de uma fuga de metano e, agora, a nova ilha dirige-se, ao sabor do vento, das correntes marítimas e da salinidade das águas em que navega, rumo ao Mar do Norte, indiciando quase todas as previsões um desastroso embate contra a costa norueguesa.
“Em termos visuais, Digger mais parece um filho bastardo de Wes Anderson que fugiu de casa e foi procurar asilo na caverna de Yorgos Lanthimos”

Ao mesmo tempo que o mundo enfrenta esta e outras eventuais catástrofes passíveis de acontecer caso sejam tomadas certas medidas de defesa contra o monstro perigoso que é um icebergue à deriva, a vida de Rockwell também se encontra em piloto automático em direção à destruição: não só a gata com quem dorme todas as noites há trinta anos enfrenta a morte, como também a multinacional que corre no sangue das gerações da família vê o valor das suas ações comprometido, uma vez que Digger não mais conseguirá extrair petróleo dos confins da ilha dinamarquesa.
Traduzo a minha sorte em palavras quando digo que não há nada como ver um espetáculo na Broadway ou em West End. Dois dos filmes de Iñárritu (este e Birdman) são o que mais me aproximou dessas experiências, e não apenas pelas temáticas. O seu jogo de câmara único (obra de Emmanuel Lubezki) leva-nos para junto dos atores, permitindo-nos respirar a frustração que eles expiram, cheirar o suor que eles transpiram, e quase partilhar do grito que atiram contra todos e contra ninguém, porque estas narrativas complexas têm um alvo disfarçado: o espectador, libertado de qualquer culpa por se estar afinal a ver a si mesmo, e por isso desculpado de se acabar a rir da tragédia em que algures foi envolvido.
Em termos visuais, Digger mais parece um filho bastardo de Wes Anderson que fugiu de casa e foi procurar asilo na caverna de Yorgos Lanthimos. Depois de Iñárritu o centrar nesse lugar macabro, voltou a usar o grande ecrã para apelar ao nosso bom senso de forma divertida, que será a maneira mais eficaz de tratar os temas mais sérios.
Se me permitem também a excentricidade, afirmo que este filme é uma fábula: entre as metáforas e exageros, quando enfrentamos Digger estamos mesmo perante um animal. Batemos-lhe palmas quando ele as pede, choramos com ele quando assim tem de ser. Hipnotizados pelo profeta, fazemos o que Iñárritu quer que façamos: deixamos a porta escancarada para a confusão entrar. Até porque, caso a fechássemos, ela lá arranjaria maneira de, mesmo sem pedir licença, a abrir e chegar até nós.
