Novos tempos, velhas histórias
“Sensibilidade e Bom Senso” está em exibição nas salas de cinema portuguesas desde 29 de outubro de 2026. A adaptação da obra clássica de Jane Austen foi realizada por Georgia Oakley.
Não existe necessidade de olhar para o enredo de Sensibilidade e Bom Senso para se pensar sobre ele: afinal, só não conhece a história quem ainda não a quis desvelar. A obra literária de origem, agora adaptada pela jovem cineasta Georgia Oakley, foi publicada há 215 anos. E, ao longo da história do cinema, várias foram as ocasiões de transportar o clássico para o grande ecrã.
Quando se embarca na demanda de adaptar um livro de tamanha envergadura, seja pelo seu próprio tamanho, seja pelo peso que foi tendo em tanta da arte que lhe sucedeu, deve-se ter em atenção, sobretudo, que convém sempre acrescentar algo. Chover no molhado, como se diz na rua e tantas vezes se faz acontecer nestes casos, não traz nada de novo, tal qual se pode depreender desse conceito.
Uma vez que tanto tempo já se passou desde que o mundo conheceu a trama da família Dashwood, engendrada por Jane Austen, é quase requerimento refrescar a história com novos detalhes, como se a árvore centenária que lhe deu origem precisasse de ser borrifada com gotas de contemporaneidade. Isso pode acontecer através de interpretações diferentes por parte dos atores, de uma nova leitura nas partes cómicas, ou da utilização de um palavreado menos arcaico, a tom de exemplo.

Seria injusto partir para comparações com o também clássico portento de Ang Lee, estreado em 1995, cujo argumento (e prestação) de Emma Thompson foi celebrado e premiado. Esse filme, mais do que respeitador das normas do grande cinema, permanece atual e com valor de repetição, o que poderia roubar o protagonismo à mais recente tentativa de trazer este trabalho de Jane Austen para o grande ecrã.
Porém, haverá sempre espaço para todos. Tal como então Ang Lee, também a realizadora da nova adaptação, Georgia Oakley, está em início de carreira. Esta posição, embora tão exposta ao escrutínio quanto passível de perdão, conferiu um pendor inovador e, de uma forma revigorante, fresco e irreverente a Sensibilidade e Bom Senso. Os mais puristas não gostarão de tantos atrevimentos em tocar e, na ideia deles, deformar o trabalho original. Todavia, para as manter jovens e aptas para enfrentar o público de hoje, cada vez ele mais distraído e, ao mesmo tempo, exigente, é crucial a hidratação de alma que encontramos em quem cria obras como esta.
Para mais, temos sempre de olhar para a coragem que um momento destes requer: Sensibilidade e Bom Senso é um romance pré-vitoriano. As vestimentas fora de moda, o excesso de modéstia, e aqueles cenários idílicos, situados num mundo que parece não mais existir, podem levar-nos a pensar o contrário: mas a lente de Oakley enfia-o sem grandes medos na estante do cinema contemporâneo que devemos, também sem grandes reservas, respeitar.


