Economia (d)as empresasOpinião

Soberania digital: sabemos realmente quem controla a nossa informação?

03 de novembro de 2026 às 14 h41

A transformação digital tornou as empresas mais ágeis, eficientes e abertas à inovação. Mas também aumentou a sua dependência de plataformas cloud, fornecedores de software e sistemas de Inteligência Artificial.

Pensemos por momentos em tudo o que uma empresa confia diariamente à tecnologia: dados de clientes, contratos, informação financeira, processos internos e decisões estratégicas. Se uma plataforma falhar, se um fornecedor alterar as condições ou se for necessário mudar de solução, conseguimos recuperar essa informação e continuar a trabalhar?

Esta é, para mim, uma das questões mais relevantes da atualidade. À medida que as ameaças à segurança da informação se tornam mais sofisticadas e a IA revela novas fragilidades, o risco deixa de ser apenas tecnológico. Pode afetar a confiança dos clientes, a reputação, o crescimento e até a continuidade da organização.
Quando falo em soberania digital, não defendo que as empresas devam fazer tudo internamente ou deixar de recorrer a parceiros. Isso seria pouco realista. Defendo, sim, que devem manter a capacidade de escolher, controlar e mudar.

O problema começa quando os dados não podem ser transferidos, as cópias de segurança ficam presas à mesma plataforma ou ninguém sabe como continuar a operar sem um determinado fornecedor. Todos dependemos de terceiros. A diferença está em sabermos até onde vai essa dependência e se temos uma alternativa.

É também desta forma que vejo a NIS2: não apenas como mais uma obrigação, mas como uma oportunidade para fazermos perguntas que muitas vezes adiamos. Sabemos onde estão os dados mais importantes? Quem lhes pode aceder? Quanto tempo conseguimos trabalhar se um serviço ficar indisponível? Conseguimos recuperar os sistemas noutro ambiente?

Com a IA, estas perguntas tornam-se ainda mais urgentes. Sempre que partilhamos informação com uma ferramenta, podemos estar a permitir que esta conheça melhor a organização, os seus processos e as suas decisões. Por isso, já não basta perguntar onde estão os nossos dados. É preciso perceber quem controla o conhecimento criado a partir deles e se conseguimos supervisioná-lo ou transferi-lo.
Acredito que devemos começar pelo essencial: conhecer os dados e as ferramentas que utilizamos, controlar os acessos, manter cópias de segurança independentes e testar a recuperação dos sistemas. Porque ter um plano no papel não significa estar preparado. Só descobrimos se funciona quando o colocamos à prova.

No fundo, soberania digital é não ficarmos sem opções. É termos liberdade para decidir, capacidade para recuperar e preparação para mudar. Num mundo cada vez mais dependente da tecnologia, essa autonomia pode fazer a diferença entre ultrapassar um problema ou deixar que ele coloque em causa o futuro da empresa.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Economia (d)as empresas

Opinião