Vergonha de sentir
Truly Naked estreou-se em Portugal a 17 de setembro de 2026. A obra da neerlandesa Muriel d’Ansembourg está disponível na plataforma Filmin.
Na rua ou na escola, Alec (o talentoso Caolán O’Gorma) parece sofrer dos problemas típicos de um adolescente normal: é tímido, caminha de cabeça baixa, faz tudo para dar pouco nas vistas. Dir-se-ia quase que tem vergonha de existir. Quando entramos em casa dele percebemos porquê: este adolescente tem uma espécie de vida dupla, como um lobo solitário, na qual passa os serões a editar os vídeos pornográficos estrelados pelo próprio pai, que ele mesmo gravou.
Este é o primeiro hastear de uma das bandeiras que o filme defende: a lembrança de que cada adolescente sofre à sua maneira, e de que todos os adultos já tiveram as suas próprias dores de crescimento, pese embora o facto de quase de certeza já as terem esquecido à força da seletividade da memória.
Num trabalho para a escola, é pedido a Alec que explore um vício de que os seres humanos sofram. Depois de sugerir o da internet, que segundo a professora é demasiado amplo, o aluno decide especializar a sua pesquisa na adição em pornografia. Este problema é um assunto de que nem os adultos têm grande gosto em falar, quanto mais os jovens, que talvez tenham mais dificuldade em concebê-lo. Porém, Truly Naked ajuda-nos a entender que os mais novos conseguem de forma mais ligeira identificar os padrões a ele associados.

De seguida, a professora implica que este trabalho, a ser feito em parelha, deve ser abordado pelas perspetivas masculina e feminina, no sentido de se tornar mais completo. E então surge Nina (a igualmente talentosa Safiya Benaddi), que num instante se tenta aproximar de Alec.
O caminho mais fácil para a narrativa seria deixar o romance desenrolar-se desde o início. Porém, por muito que Alec tenha a maior das facilidades em lidar com as modelos que trabalham para o pai, seja no seu nudismo natural ou a satisfazer os fetiches dos visualizadores, quando há sentimentos reais envolvidos a história é diferente: há um impedimento mais profundo do que parece inerente à exposição precoce perante a crueza do sexo e dos corpos que este jovem todas as noites testemunha; há uma certa vergonha em sentir; há uma imensa dificuldade em interiorizar que o sexo e o amor não devem ser confundidos, mas podem ser misturados.
Apesar disso, Truly Naked é um filme desavergonhado sobre o mais envergonhante dos assuntos. Segue para onde menos esperamos, e isso é sempre bom. Desde o começo que não se importa de ser explícito, talvez mais do que queremos, talvez menos do que desejamos. Ainda assim, é nas partes de sexo que se torna menos interessante, e curiosamente menos atrativo. Tem o poder de um primeiro amor, e a sensibilidade que apenas uma mulher consegue alcançar, neste caso a de Muriel d’Ansembourg. Mais do que tudo, contempla cenas profundas, retardadas pela calma com que a realizadora e argumentista pretende explorar esse sopro de paixão, que tantas vezes reprimimos, e que acontece de forma incondicional e independente do que o rodeia.
Não vou negar: Truly Naked é um filme um tanto esquisito, longe de ter sido preparado para o grande público. Em certos momentos, consegue até ser repulsivo. No entanto, por vezes faz-nos bem entrar na sala de cinema mais pequena, aquela que espera por nós bem ao fundo do corredor. Apenas assim conseguimos mesmo sentir que há filmes que foram feitos só para nós.
