O embuste
O marketing é uma grande arma ao serviço das grandes empresas. Aliás, provavelmente já nem sequer é propriamente marketing, mas mais o spinning, como nos políticos, arranjando forma de tudo justificar. Ok, divago, vamos ao concreto.
A coberto de sociedades e ONG criadas para o efeito dizem-nos que reciclemos para que não haja plástico nos oceanos. Transferem-nos não só a responsabilidade económica como, ainda por cima, a culpa, num sentido muito judaico-cristão. E nós lá vamos, iludidos de que pecámos, levar as garrafinhas ao confessionário moderno à porta do supermercado, confessar os nossos pecados e, num acto de contrição, inserir as garrafinhas em penitência à espera da absolvição salvadora no formato de um bilhete a gastar no próprio super…
Assim os produtores dos resíduos, além de libertos de dar solução aos resíduos que produziram, ainda nos aparecem como verdadeiros messias salvadores através das sociedades que reciclam as coisas que nós, pecadores, lhes comprámos.
E o ambiente que se dane. Porque nada disto serve ao ambiente, nem, por arrasto, a nós. A política dos 3R REDUZIR, REUTILIZAR, RECICLAR não é uma política destinada ao indivíduo, mas sim à economia. E sim, tem uma ordem, e a reciclagem é o último passo, quando mais nenhum se pode aplicar. Mas é à economia, às empresas produtoras, que compete, em primeiro, reduzir os resíduos que produzem. Caso não seja possível o primeiro R é a elas que compete recorrer ao segundo e reutilizar esses materiais para não virem a ser resíduos. Por fim, caso não seja possível nem a primeira nem a segunda, então reciclem, elas, as que ganham com a produção, as empresas.
O plástico de hidrocarbonetos fósseis é um material incrível. Com uma longevidade impressionante. Por isso pensemos, faz algum sentido utilizar um material que dura para cima 500 anos para fabricar coisas que se utilizam apenas uma vez? Uma hora no saco de compras meio milénio na natureza.
Parece-me que não. Ao invés desta arquitectura que apenas mais «economia» produz, que tal regulamentar de forma a impedir que isto aconteça? Que tal fomentar a utilização de plásticos com outras origens, amido por exemplo, que se desfazem em alguns meses? Ou que tal fomentar outras formas de acondicionamento, mas sérias, não este serviço a beneficiar quem produz resíduos que acompanharão gerações e gerações de nossos descendentes.
Querem uma prova de que não funciona? Vejam há quanto tempo andamos a tentar este tipo de soluções, sempre a aumentar os resíduos descartados…. Insistir numa prática que não resulta não é sinal de clarividência…
E ao indivíduo? Ao indivíduo nada compete?
Bom, primeiro não utilizem o que aqui lêem para justificar práticas menos cívicas… Dito isto e com o risco de me repetir, será mais útil ao ambiente e à sociedade que nós, indivíduos, votemos conscientemente e participemos em movimentos, grupos, associações, do que andarmos a confessar pecados que nos inventaram…
Nota: Partilhei ao longo de anos esta página com o Veiga Simão, partilhávamos uma amizade anterior e foi com surpresa que nos encontrámos «aqui». Até sempre Tóju.
Até 10 de Agosto está em consulta pública um teste de esforço (stress-test em português moderno) às Directivas Europeias dos Habitats e das Aves. Basicamente a regulamentação que tenta proteger a natureza na EU. E de que trata? De provar que o seu cumprimento é muito árduo, muito difícil para a economia e, com isso, justificar uma «simplificação» que é gíria para aligeirar a protecção, acabando nos famosos »parques de papel», áreas que são apenas protegidas em teoria para aplacar angústias, mas que nenhuma ameaça impedem.
Estes «Parques de Papel» serão um tema a desenvolver futuramente, entretanto, se quiserem fazer algo em defesa da natureza participem em EUSurvey – Survey (https://ec.europa.eu/eusurvey/runner/22d20b14-2b97-4cfd-a9b0-fffaa9937e27).

