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Uma ponte sobre a infância

28 de abril de 2026 às 19 h44

O centenário de Harper Lee celebra-se a 28 de abril de 2026. O romance “Mataram a Cotovia” foi vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção em 1961, e adaptado no ano seguinte para cinema por Robert Mulligan sob o nome “Na Sombra e no Silêncio“.

 

Até hoje, apenas duas artistas conseguiram transportar-me de volta à infância: Elena Ferrante e Harper Lee. Não tendo dúvidas sobre Ferrante, por trás do anonimato, ser uma mulher, posso afirmar que a porta para esse lugar mágico é aberta com a chave da sensibilidade feminina. Só assim somos levados, de mão dada como uma criança a atravessar a rua, para onde as melhores coisas nos acontecem sem as termos pedido, sem sequer nelas repararmos.

Scout (Mary Badham) tem seis anos e um verão pela frente. Sabe ler desde que nasceu, trata o pai, Atticus Finch (Gregory Peck, num casting perfeito), pelo nome, finge coragem durante o dia e reserva as dúvidas para as saldar com o progenitor viúvo, que a acalma à noite, antes de ir dormir, entre leituras e conselhos inesquecíveis.

A aventura e a diversão chegam com Dill (John Megna), baseado no amigo de infância de Harper Lee, o escritor Truman Capote, que desafia Scout e o irmão a irem bater à porta da casa onde vive o temível Boo Radley (Robert Duvall). Deste sujeito macabro sabe-se pouco, além de que terá tentado matar o próprio pai e que, por essas e por outras, não aparece à luz do dia.

 

“Até hoje, apenas duas artistas conseguiram transportar-me de volta à infância: Elena Ferrante e Harper Lee”

 

Scout tenta viver como um menino: no limite. Tal acontece não só por estar sempre no meio daqueles dois rapazes, mas porque, na cabeça dela, ser menino significa ter coragem, talvez por a ver no pai, que é advogado e defende os menos afortunados, talvez por a encontrar no irmão mais velho, que não perde uma aventura. Por isso Scout gosta de andar à bulha na escola e abomina vestidos de menina.

 

 

Tenho as minhas reservas sobre esta ser uma história para crianças. Talvez o livro, conduzido pelo tom infantil da narradora, o seja mais, mas mesmo assim julgo que tanto num meio como noutro existem nuances que só alguma idade e experiência nos abrem os poros para absorver. O livro acaba, como sempre, por ter uma profundidade a que o filme nunca poderá chegar: as sensações da narradora na primeira pessoa sobre os diversos acontecimentos são impossíveis de transpor na totalidade para o ecrã, mesmo recorrendo ao voz-off.

Existe ainda uma história paralela a correr junto da infância de Scout: o seu pai foi encarregado de defender Tom Robinson (Brock Peters), acusado de violação.

 

“O retrato da história, tanto no livro como no filme, foi alvo de críticas (o livro continua a ser banido) pela forma natural como ambos tocam na questão da segregação”

 

Num mundo que nos parece perfeito, onde as crianças brincam sozinhas na rua e se descem colinas dentro de pneus sem abrir feridas, continuamos a estar situados no sul dos Estados Unidos da América dos anos 30, onde imperam o racismo e outros preconceitos estabelecidos.

A cor da pele de Tom Robinson não é assunto para Harper Lee, tal como não o foi para o realizador desta adaptação de 1962, Robert Mulligan. O retrato da história, tanto no livro como no filme, foi alvo de críticas (o livro continua a ser banido) pela forma natural como ambos tocam na questão da segregação e a reduzem ao que, na verdade, ela é: uma falácia humana.

Pelas palavras de Harper Lee ou pela voz de Scout damos conta de como um assunto aparentemente complicado é passível de ser desconstruído através da mestria de uma observação acutilante e de um sentido de humor que parece resolver tudo; até mesmo os problemas de uma criança de 6 anos.

 

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