Entre tentar e falhar: quando o medo trava a aprendizagem
Em contexto clínico e escolar, encontro cada vez mais crianças que hesitam antes de tentar.
Não é falta de capacidade, nem falta de interesse. É medo de errar. Um medo silencioso arte do processo de aprendizagem para passar a ser vivido como uma falha pessoal. Como se o erro dissesse algo definitivo sobre quem se é. E, perante isso, muitas crianças escolhem não arriscar. Ficam no conhecido, no confortável, onde o risco de falhar é menor — mas também onde a aprendizagem se torna mais limitada.
Na adolescência, este padrão tende a complexificar-se. A crescente consciência de si, aliada à importância do olhar dos outros, pode intensificar o receio de errar. Já não se trata apenas de falhar numa tarefa, mas de se expor ao julgamento, à comparação, à possibilidade de não corresponder às expectativas. Em muitos casos, o evitamento mantém-se, mas torna-se mais sofisticado: procrastinação, desinvestimento ou até desvalorização aparente do que está em causa.
Neste cenário, o papel dos adultos é delicado. Na tentativa de apoiar, por vezes, antecipamos dificuldades, corrigimos rapidamente, evitamos a frustração. Mas, sem querer, podemos estar a reforçar a ideia de que errar é perigoso ou indesejável.
Aprender implica necessariamente falhar. Implica tentativa, repetição, tempo. Implica também tolerar o desconforto de não conseguir à primeira. Quando esse espaço não existe, a curiosidade encolhe e a confiança fragiliza-se.
Talvez a nossa tarefa não seja evitar o erro, mas ajudar as crianças e os adolescentes se relacionarem com ele de forma mais saudável. Mostrar, com palavras e atitudes, que errar não define, não diminui, não encerra. Que é apenas uma parte do caminho.
Criar um espaço onde se possa tentar sem garantia de sucesso é, muitas vezes, o que permite que o desenvolvimento aconteça. Porque é nesse espaço — imperfeito, incerto — que se descobre que se consegue continuar, mesmo depois de falhar.
