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O que fazer com as frustrações?

28 de abril de 2026 às 10 h45

Num mundo onde parece que só há lugar para o sucesso, a beleza, a riqueza e o poder… não há lugar nem tempo para lágrimas, fracassos ou frustrações.
Cada vida, e a própria experiência humana, parece ter sido editada como um vídeo: cortam-se as falhas, apagam-se os erros, filtram-se as imperfeições.
A cultura dominante, muito impulsionada pelos influencers, é marcada pela estética da perfeição e pela lógica do consumo, constrói-se uma narrativa quase irreal: viver bem é estar sempre bem. Há uma pressão silenciosa para sorrir, para produzir, para mostrar resultados — e sobretudo para parecer sempre feliz.

A vulnerabilidade, que sempre foi parte essencial da condição humana, torna-se algo desconfortável, quase indecoroso. A morte, a doença, a frustração… é para apagar do ecrã da vida. Quem falha, quem hesita, quem chora… está sempre em dessintonia.

Contudo, a ausência de espaço para a frustração não elimina o sofrimento — apenas o empurra para o privado e para o invisível. E isso tem um custo. Quando não se pode falhar em público, falha-se em silêncio. Quando não se pode estar triste, aprende-se a disfarçar. E pouco a pouco instala-se uma espécie de solidão coletiva: todos parecem bem, mas poucos se sentem realmente compreendidos.
Há também uma armadilha mais subtil, ao transformar a vida numa sequência de momentos “apresentáveis”, perde-se a profundidade da vida como um todo.

O problema não está no bem-estar em si, nem no divertimento, nem na beleza. O problema começa quando essas coisas se tornam obrigatórias, quando deixam de ser momentos para passar a ser exigências permanentes.

Reclamar o direito à frustração, ao fracasso, às lágrimas, não é um retrocesso. É, pelo contrário, um gesto de lucidez. Porque é nesse território menos visível — onde não há filtros nem aplausos — que a experiência humana continua a acontecer de forma mais verdadeira.

Contudo, a frustração não pode ser apenas o lugar do queixume, da reclamação, do autocomiseração subjetiva feita de carência afetiva de quem só pensa em si e no seu problema. Tem de ser oportunidade para pedir ajuda, estímulo para recomeços, acreditar nas forças próprias e na ajuda de Deus.

O Papa Leão XIV dizia aos padres no passado dia 2 de abril: “A dramática possibilidade de incompreensão e de rejeição já se manifesta na reação violenta dos habitantes de Nazaré à palavra de Jesus: «Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo» (Lc 4, 28-29). (…) O que nos preparamos para celebrar (…) compromete-nos a não fugir, mas a “passar pelo meio” da provação, como Jesus, que, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho (cf. Lc 4, 30). A cruz é parte da missão”.

A consciência dos nossos limites e das nossas fragilidades torna-nos mais humanos e mais sensíveis às dificuldades e problemas dos outros. Podem ser ainda mais um reforço na importância de contarmos com as nossas forças, com a ajuda dos outros e, sobretudo, com a ajuda de Deus.

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