O fantasma do reinado passado
Isabel II faria 100 anos a 21 de abril de 2026. A Rainha, de Stephen Frears, retrata a estratégia de reação pública da monarca e do primeiro-ministro Tony Blair à morte da princesa Diana.
Mesmo depois de ter sido eleito pela nação, o futuro primeiro-ministro britânico Tony Blair (Michael Sheen) teme encontrar-se com a rainha Isabel II. Tal se deve ao pendor modernizador com que pretende governar o Reino Unido, mas sobretudo ao peso que a monarca carrega no seu semblante, o seu gravitas.
No primeiro encontro oficial entre os dois, a rainha enfatiza que Blair é o décimo primeiro-ministro do seu reinado. Para se impor no jogo de poder, relembra ainda que o primeiro chefe de governo sob a sua alçada foi Winston Churchill. Aqui começamos a conceber quem foi aquela figura: uma testemunha viva da história recente. Ajoelhado, o político trabalhista pede para formar governo. Serena, mas carregada de ironia, Isabel II explica, qual professora arrogante: “A pergunta tem de partir de mim.”
O filme “A Rainha” foi desenhado com traços de documentário, sobretudo por se situar em volta da morte da princesa Diana. Porém, felizmente não se fica por aí: as reações de pura tristeza do povo britânico surgem-nos como num telejornal, em imagens de arquivo, mas todo o desenrolar da tragédia vai sendo encenado por atores eximiamente caracterizados e competentes.

O conflito da obra surge quando a rainha, uma vez que Diana já não fazia parte da realeza, aceita o pedido da família da defunta para a realização de um funeral privado e sóbrio. À medida que o povo vai requerendo uma posição oficial da realeza sobre a morte prematura da princesa de Gales, a pressão sobre a monarca aumenta. O novo governador está interessado em crescer aos olhos do seu povo; portanto, sugere que se preste a devida homenagem a Diana através de um funeral público e de maiores dimensões.
Este filme é claramente sobre um jogo de egos. Se retirássemos o fator realeza, seria apenas um drama familiar. Uma vez que se trata da coroa, a conversa é diferente.
O primeiro momento em que vemos a rainha desconfortável é quando surgem, na TV, imagens do casamento real entre Diana e o ainda príncipe Carlos (Alex Jennings): é referido que o povo quis presenciar o consumar do matrimónio por causa do futuro rei e da rainha, mas sobretudo para ver Diana. Helen Mirren é perfeita a representar a consternação de Isabel II em conceber o simples facto de que a princesa era mais popular do que ela.
“Não é fácil retratar pessoas vivas em filme: joga-se com o risco de errar profundamente (podendo-as injustiçar), ou simplesmente de acertar demasiado (podendo-as ferir)”
Mas esta é uma daquelas obras em que, apesar do bom senso do povo e de Tony Blair, e por causa dos argumentos e sentimentos dos membros da família real, nos vamos sempre apercebendo de que a sensibilidade de qualquer pessoa pode, a qualquer momento, estar descalibrada.
Confesso-me desconhecedor das vidas da realeza britânica além de pela rama, ainda para mais sobre um momento que aconteceu quando tinha meses de idade. Mas se uma história é bem contada, quem quer mesmo saber se tudo aconteceu exatamente daquela maneira?

