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Os deuses também se enganam

07 de abril de 2026 às 20 h47

Sobrevivendo a Picasso” é o único retrato em filme sobre o pintor. A 8 de abril faz 53 anos que perdemos Pablo Picasso.

Picasso pode bem ser o primeiro nome que nos vem à cabeça quando pensamos na palavra artista. Muitos terão uma cópia de um trabalho seu pendurado em casa, ou um retrato seu em que os seus olhos parecem dois aquários curiosos. Jaume Sabartés, seu secretário, afirmou que, depois da Segunda Guerra Mundial, os turistas só visitavam a Europa para ver o Papa, Pompeia e Pablo Picasso (o camaleónico Anthony Hopkins).

Picasso era um monstro. James Ivory, o realizador da única cinebiografia sobre o pintor, conta os dois lados da sua vida: o das mulheres e o dos quadros. Por vezes eles fundem-se; outras vezes praticam um braço de ferro pela sua atenção. Existe nele um forte sentimento de posse perante ambos, apesar de o artista garantir que os quadros se pintam sozinhos, sem a ação do cérebro, ao passo que as mulheres devem ser suas submissas.
Talvez pela constante necessidade de ser admirado, Picasso cobrava a existência das suas mulheres para lhes garantir a eternidade, tatuando-as nos seus retratos. Para se manter vivo e à sua arte, saltava de mulher em mulher como quem troca de sapatos, vivendo numa poltrona machista como alguns dos seus contemporâneos expatriados em Paris (recorde-se Hemingway).

Porém, pintava-as como ninguém: distorcia-as à sua maneira, moldando-as numa amálgama impossível de repetir, não obstante as tentativas de alguns dos seus pares. Ainda assim, Sobrevivendo a Picasso, como o próprio nome indica, também é sobre Françoise Gilot (Natascha McElhone), a única mulher que conseguiu abandonar o artista e sair por cima. Escudada pelo seu sentido de humor e pela capacidade de se rir de Picasso, não se deixou distorcer por ele; pelo contrário, foi pioneira a conseguir o inverso.

“O filme é passado em Paris, embora não a Paris que costumamos ver no cinema, com a Torre Eiffel de fundo e o Sena aos pés; a Paris dos artistas, dos ateliers e dos estúdios, dos quadros esquecidos no meio da imundice da criação, nunca terminados porque uma obra de arte fica sempre a meio”

 

Não duvido nem por um segundo que Picasso fosse mesmo assim: um pequeno autoproclamado rei, esquisito, de comentário inoportuno na ponta da língua, de toque fácil e sempre pronto a empurrar os que gostam dele. Só quem tem a vida toda dentro de si se pode dar ao luxo de tamanho desprezo.

Não é preciso perceber de pintura para conceber a grandeza de Picasso. É justo, no entanto, alegar que há pintores maiores do que ele. Talvez o seu reconhecimento advenha da questão do homem e da sua circunstância: afinal, Picasso viveu a Paris dos loucos anos 20, sobreviveu à ocupação alemã e celebrou a sua libertação. Mais do que ser uma testemunha da história, continuou casado com a sua arte o tempo todo, apesar de assumir que não fez nada demais: “Os outros é que se portaram mal.”

No início do filme, uma ainda encantada Françoise confessa que, se Picasso tocar na vida alguém, ela nunca mais será a mesma. Chegamos a ouvir que, depois de Picasso, só há Deus.

O filme não é perfeito, mas é muito equilibrado. Além disso, está tremendamente bem escrito e repleto de frases memoráveis. Foi Picasso quem o disse, mas podia bem ter sido James Ivory: “Cometo muitos erros, mas Deus também.”

 

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