A boa e velha Hollywood
O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) foi exibido pela primeira vez em Portugal a 11 de maio de 1951. A cumprir 75 anos de vida, a obra de Billy Wilder é uma paragem incontornável em qualquer visita à história do cinema.
Ver um filme de suspense típico é como assistir a um longo cabo a arder lentamente em direção à dinamite. Contemplar uma obra de Billy Wilder é esquecer que algo tem sempre de rebentar para ter efeito no público, pois a nata cremosa com que são cozinhadas as suas telas em movimento é tudo o que importa: aquele momento e aquele lugar imaginário a que, de forma redutora, temos de chamar ficção. E, se for preciso antecipar ou adiar algo, este realizador fá-lo-á por si, sem nos obrigar a pensar demasiado ou a prever fintas e plot twists; a isto se chama presunção de inteligência do público.
Todos os momentos das suas obras são importantes, cativantes, e estão montados com uma mestria invejável. Os planos são simples e os diálogos económicos, o que não quer dizer que não seja complicado desmontar o puzzle em que Wilder nos envolve nas suas tramas. Mas no fim tudo faz sentido.
Ao contrário de Alfred Hitchcock ou Orson Welles, conhecidos pela sua fotografia icónica, o cineasta polaco-americano assumiu dar primazia à história em detrimento da imagem. Deste modo, continuaria a manter as suas narrativas eternas, e o público não se distrairia com a vertente estética da obra.

Filme foi exibido pela primeira vez em Portugal em 1951
Em O Crepúsculo dos Deuses, Joe Gillis (William Holden) é um argumentista de filmes de série B de Hollywood. Este podia ser um eufemismo para falhado, mas qualquer julgamento deve ser feito com cautela quando estamos perante personagens tão misteriosas e ensimesmadas. No limiar da falência, um acaso leva-o ao palácio de uma antiga atriz de filmes mudos.
Norma Desmond (Gloria Swanson) foi descartada como um sapato gasto assim que o microfone entrou no estúdio de cinema. Por isso vive há anos naquilo a que os fãs de hip-hop gostam de chamar de ego trip. Para se manter acompanhada naquele casarão abandonado, Norma acolhe Joe num cativeiro macabro, patrocinando-lhe os escritos, nomeadamente a tarefa de corrigir um guião que a mesma escreveu e que precisa de recortes e outros ajustes para ser apresentado ao colosso produtor Cecil B. DeMille (a fazer dele mesmo), que outrora fez dela uma estrela.
O Crepúsculo dos Deuses cometeu a audácia de virar clássico parecendo estranho ao mesmo tempo, duas características geralmente insolúveis: é lento, as entregas e avanços narrativos são tarefa do diálogo, a personagem central é um homem sem grande sal, e passa-se quase todo em volta da mesma mansão, em Los Angeles.
“Juntamente com Serenata à Chuva (arrisco-me a colocar também no baralho Babylon), são as mais consagradas cartas de amor ao cinema mudo, que uma vez que aprendeu a falar, morreu”
Nem uma nem outra são de maneira alguma saudosistas; apenas demonstram a frustração das suas personagens, que estão hipersensíveis com a mutação da arte que os levou aos quatro cantos do mundo. Permitam-me inserir aqui as magníficas palavras de Annie Ernaux sobre estes sentimentos: “A raiva é o sinal de que te sentes impotente.”
A performance de Gloria Swanson é teatral sem ser foleira ou melodramática, o que não é nada fácil. No seu preto e branco típico dos filmes desse género esquecido que é o noir, com os seus diálogos alindados mas sem rodriguinhos, os seus planos simples mas eficazes, O Crepúsculo dos Deuses não é, e desconfio que nunca será, refém do tempo. Mas para isso temos de ir a ele regressando para confirmar que a validade não passou mesmo do prazo.

