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O esplendor da indiferença

05 de maio de 2026 às 19 h10

O Estrangeiro é a terceira adaptação do clássico de Albert Camus para o grande ecrã. A obra a preto e branco de François Ozon está em exibição desde 12 de março.

 

O conflito do romance clássico O Estrangeiro, de Albert Camus, é apresentado mal começa a história. A exposição da personagem, ao contrário do convencional, só acontece depois. Antes de o conhecermos, sabemos já: a mãe de Meursault morreu.

Também ao contrário do que estamos habituados nas personagens principais, sejam heróis ou anti-heróis, a reação a um acontecimento fatal como este seria, no mínimo, de revolta, de vingança ou de depressão. No caso de Meursault (Benjamin Voisin), vemos apenas indiferença, mesmo quando este é confrontado com as várias instâncias da vida: o amor, o ódio, o trabalho, a justiça, e até a religião.

 

“A escolha de filmar a preto e branco é tão corajosa como acertada”

 

É certo que pode barrar muita gente da sala de cinema, mas ao mesmo tempo incide como mote de sobriedade para pintar a obra desse monocromatismo que simboliza o desprezo para com o alheio e até para com os próprios sentimentos. Apesar dos cenários magníficos a retratar a Argélia onde o escritor nasceu, temos um Meursault robótico, que nem o amor da musa Marie (Rebecca Marder) consegue humanizar, sequer despertar.

Faz precisamente por esta altura uma década que li o romance de Camus. Ao ver aquela que é a terceira adaptação da história para o grande ecrã tive, praticamente sempre, a sensação de regresso à história absurda do homem que não é capaz de verter uma lágrima pela sua mãe; talvez este retorno seja fruto da crueza e incisividade da obra literária, que é fielmente reproduzida no ecrã, ou simplesmente por O Estrangeiro ser de facto um grande e memorável romance.

A segunda parte da história é quase toda passada dentro de um tribunal. Meursault assassinou um árabe sem motivo aparente, deitando a perder uma vida pacífica e repleta de amor refletido no cenário afrodisíaco de um quarto no ardente norte de África e em belos banhos no mar da paixão que é o Mediterrâneo. No julgamento, que mais parece saído de uma narrativa kafkiana, vamos apreciando, não surpreendemente, a falta de remorso da personagem face à acusação, bem como a eterna vontade em contar a verdade; e a verdade é que Meursault é culpado.

 

“A pimenta que falta recorrentemente na transposição de um clássico da literatura para cinema é adicionada por Ozon quando tempera a história, no grande momento do filme, com a voz das vítimas”

 

A pimenta que falta recorrentemente na transposição de um clássico da literatura para cinema é adicionada por Ozon quando tempera a história, no grande momento do filme, com a voz das vítimas: a irmã do árabe assassinado confessa a Marie, após a primeira sessão do julgamento, que ninguém quer saber do seu irmão, que morreu. Assim, acusa os presentes de apenas se importarem com o francês, quer lhe seja feita justiça ou não; mas no seu irmão, que já não se pode defender, ninguém pensa.

O título deste romance sempre me intrigou: estrangeiro funciona como eufemismo para alienado, devido à indiferença da personagem central. Ozon vai mais além e volta à palavra original: Meursault é alguém que, estando num país colonizado pelo seu, terá sempre, à partida, vantagem sobre os indígenas, faça o que faça. E aí reside a atualidade deste grande filme.

Para além disso, François Ozon não inventa muito neste filme; essa é a sua maior força, mas também a sua maior fragilidade.

 

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