Num mundo cada vez mais cego, ele foi capaz de as ver
A história deixou-nos, a todos, com um aperto no peito: duas crianças francesas, de cinco e três anos, foram abandonadas numa floresta pela mãe e pelo padrasto. Os dois adultos vendaram-nas, convencendo-as de que iam participar num jogo. Havia um brinquedo escondido algures, que eles teriam de encontrar. Depois, os adultos desapareceram. Os dois meninos acabariam por ser encontrados junto à Estrada Nacional 253, que liga Comporta a Alcácer do Sal, por um padeiro, Alexandre Quintas, que se dirigia para o trabalho. Quando o viram passar, correram atrás dele, aos gritos, em lágrimas. O mais velho explicou-lhe que se tinham perdido, e que a mãe tinha ido embora sem eles, mas Alexandre suspeitou da história, que lhe pareceu logo um caso de abandono, e decidiu ajudá-los. Era o que qualquer um de nós o faria, certo? Afinal, eram duas crianças muito pequenas, abandonadas, à beira de uma estrada. Então, o que é que tem o padeiro de Alcácer, pai de dez filhos, homem de lágrima fácil, que tanto nos comove?
O caso era preocupante e obrigava a intervenção rápida. Alexandre não sabia quem eram aquelas crianças, não conhecia a sua história, se estavam doentes ou magoadas, se havia familiares à procura delas, se as autoridades já teriam sido alertadas. Mal entendia a língua que falavam. Sabia apenas o que conseguia ver: duas crianças assustadas, a chorar à beira da estrada e, suspeitava, abandonadas por quem tinha a obrigação primeira de as proteger. O cenário era desolador, profundamente triste, mas colocava Alexandre numa situação delicada. Qualquer um de nós teria feito o que manda a prudência e entregado, de imediato, as crianças às autoridades. E estaria tudo certo: é o que é suposto fazer e estaríamos a ajudar. As autoridades fariam tudo para que aquelas crianças fossem devidamente encaminhadas, é esse o seu papel. Mas Alexandre fez outra coisa.
“Percebi que tinham sido abandonados e a minha preocupação foi logo levá-los para a padaria e pô-los a brincar, para eles não sentirem tanto o abandono. Quis que eles brincassem, que comessem gulosices, como se estivessem na casa deles”, ouvi-o contar. “Pu-los a brincar, a fazer desenhos, dei-lhes logo chocolates. Queria que eles sentissem confiança em alguém”, explica com uma simplicidade desarmante. Alexandre não tinha um plano, não tinha nenhuma estratégia especial para gerir aquela situação dificílima. Tinha apenas um propósito: devolver àquelas crianças, pelo menos enquanto isso estivesse ao seu alcance, um bocadinho do algodão doce em que todas as infâncias deviam vir embrulhadas.
As autoridades acabaram por vir buscar as crianças, mas enquanto não chegaram, aquela padaria, perdida numa pequena cidade alentejana, foi um abrigo de segurança e bem-estar para dois meninos que, em tão pouco tempo de vida, já viram o que de mais negro há no mundo. Curiosas, viram Alexandre trabalhar, pôr farinha na amassadeira, fizeram perguntas sobre o fabrico do pão. Andaram de bicicleta, usaram os brinquedos que os filhos do padeiro partilharam. No fim, já se referiam a essas crianças como “amigos”. Jantaram com aquela família. Jantaram em família.
Vi Alexandre relatar esta história várias vezes, quase sempre, comovido. “Qualquer dia sou conhecido pelo padeiro chorão, estou sempre a chorar”, ouvi-o dizer com uma simplicidade que nos põe, a nós, chorões. Este homem teve uma extraordinária sensibilidade para com aqueles dois meninos: antes de os tratar como vítimas, tratou-os como crianças. Quis dar-lhes um bocadinho de paz porque sabia que, a seguir, vinha o inferno. Ele não tinha um plano, e devia estar assustado, como qualquer um de nós ficaria, mas tinha duas crianças à sua frente. E, num mundo cada vez mais cego, ele foi capaz de as ver.


