O salário e a função
Os direitos das pessoas devem ser imparciais, devem ser de fácil acessibilidade, devem ter fronteiras e sobretudo devem conhecer o respeito alheio se em contacto com os direitos dos outros. A intromissão constante, a parcialidade frequente, o desleixo, a negligência, transportam uma agressão na linha de fronteira e é essa realidade que leva à reacção. A vida é muito freio e acelerador, estímulo e recusa, sugestão e negação, mas pode ser razoável se houver “tolerância descomprometida” ou se permitir a remoção de “injustiças evidentes”, se identificar e reduzir as “injustiças superáveis”. O que detesto, é o consenso, essa sopa anódina onde todos perderam para construir um pudim sem alma.
É mais violento o trabalhador que fez todo o trabalho sozinho, ou o tipo que o deixou só quando era seu dever trabalhar conjuntamente? É mais violenta a reacção do que trabalha na solidão, ou o facto de ter sido desrespeitado? É mais injusto o revoltado ou o absentista?
Na verdade, a violência também pode estar na ausência, no descompromisso com a tarefa, na forma negligente de participação, na omissão, no virar da cara para o lado.
Por isso dizem conflituoso o que reage, omitem o que falha, frequentemente branqueiam o irrazoável. A vida prática é a batalha contra os abusadores, contra os prevaricadores constantes, contra os que entendem ter mais direitos que os demais, que transportam um ego doente e indolente. Os preguiçosos vivem nas costas dos que trabalham e à reacção da montada cansada, ao coice do animal exausto, gritam que é irascível e desagradável. Milhões de cidadãos refugiam-se no absentismo, protegem-se em baixas constantes, evitam aprender tarefas, rogam desesperados pelos seus direitos, mas montam nas costas alheias com esporas e chicote e disso nem se dão conta. No final, o trabalho será realizado e receberão seu salário imaculado. Bastava que quem exercesse o mando pudesse distinguir, pudesse premiar, ousasse verificar e explicar. A demonstração inequívoca dos resultados constrói o direito à mudança do lugar comum: trabalho igual, salário igual!


