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Em que pensas, Sorrentino?

14 de abril de 2026 às 19 h00

La grazia, a décima primeira longa-metragem de Paolo Sorrentino, tem estreia marcada para 16 de abril. De volta à política e à crítica social, o filme marca a sétima colaboração com o ator Toni Servillo.

É tentador comparar Paolo Sorrentino a Federico Fellini, os dois realizadores italianos do cinema poético do sentimento. Diria que, além da língua, pouco mais haverá realmente em comum nos seus filmes. Fellini encontrou a ordem dentro do caos, e elevou o conceito a um estatuto ímpar, dada a sua estranheza genial; Sorrentino cria o caos dentro da ordem, dos planos equiláteros, demarcando-se do seu compatriota por aprofundar as narrativas com uma escavadora mais afiada.

 

“Serei sempre parcial nesta temática: além de admirador da obra de Fellini, guardo A Juventude, de Sorrentino, na gaveta dos filmes mais importantes da minha vida. E, por isso mesmo, consigo separar as águas: são amores diferentes”

 

Em La grazia, Toni Servillo é o Presidente da República Italiana, Mariano De Santis. A sua secretária, que também é sua filha, está a redigir um esboço da lei da eutanásia que o Presidente deverá assinar antes de o mandato terminar; a pedido do ministro da justiça, que também é seu amigo de sempre, deverá decidir sobre conceder perdão (la grazia) a dois assassinos.

 

As dúvidas de Mariano vão sendo confidenciadas, em pensamento, à sua falecida esposa, que surge sempre como um vulto a caminhar pela neblina. Aurora de seu nome, vai sendo através dela que vamos tirando as medidas ao Presidente, que vive no limbo entre a vontade de deixar um legado memorável e o receio católico de ficar na história como torturador caso rejeite a lei da eutanásia, ou assassino caso a promulgue.

As personagens de Sorrentino respiram conflito, mas raramente o exprimem. A explosão de um berro ou o barulho seco de uma chapada bem dada será a sua eventual libertação. Um close-up do protagonista a furar a quarta parede, em silêncio, prestes a pedir ajuda ao espectador, é uma das suas imagens de marca. Por vezes surge da personagem mais inusitada o ensinamento mais crucial do filme. Outras vezes ouvimos a repetida questão com que Sorrentino nos assola, a dúvida eterna entre a sua gente: “Em que pensas?”

As respostas, naturalmente, variam. Recordo como a mais marcante a de Diego Maradona em A Juventude, por quem Sorrentino nutria um grande carinho, uma quase obsessão. Já reformado, obeso, ofegante, praticamente acabado mas ainda com pujança para dar toques com uma bola de ténis num hotel para reformados, só podia estar a pensar numa coisa: “En el futuro.”

 

“Os filmes sobre o futuro geralmente usam o passado para tentar situar-nos no presente, num presente”

 

Mas os filmes de Sorrentino não têm presente; não têm sequer lugar no tempo: não existem no passado, e decididamente não se passam no futuro; talvez aconteçam noutro mundo, um mundo que, como Fellini, o autor foi capaz de criar. E é essa a maior prova de que um cineasta pode ser um criador, um semideus: a capacidade de inventar um novo mundo, credível mas a cada visualização diferente, porque há sempre algo para descobrir no que julgamos que já foi visto.

 


 

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