Opinião – O Futebol do Ocidente

É curioso questionar a esta distância se os tiros disparados pelas forças da NATO na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia e na Síria diferem em alguma medida dos tiros disparados esta semana pela Rússia na Ucrânia?
A observação do jurista alemão André Thomashausen, professor jubilado de Direito Internacional da Universidade da África do Sul (UNISA), sublinha que a intervenção da Rússia invoca os princípios “modernos” do Direito de Proteção (R2P) e da mesma “Humanitarian Intervention” em que o Ocidente baseou a realização dos bombardeamentos indiscriminados na Jugoslávia, Iraque, Líbia e Síria.
Este analista, questionou ainda porque é que o apoio às proclamações independentistas do Kosovo, do Sudão do Sul, do Sara Ocidental e da Catalunha, em Espanha, é “legítimo”, e o mesmo tipo de apoio à independência de Donetsk e Lugansk, não o é?
Na ótica deste jurista, a África do Sul e a União Africana não têm nada a ganhar ao reviverem a experiência da década de 1970, quando foram “o futebol das superpotências” na busca pela hegemonia regional.
Neste novo jogo de guerra (s) com “medidas” e “contramedidas” à margem do Conselho de Segurança das Nações Unidas, incapaz de executar o seu mandato na manutenção da paz mundial sob liderança portuguesa, os próximos dias da ofensiva militar russa certamente dirão se o objetivo de Putin é somente Kiev e/ou se a falta de apoio dos Estados Unidos e da União Europeia à Ucrânia é “inocente”.
Ao contrário das lideranças socialistas europeias, sempre interessadas em faturar monetariamente com conflitos armados, nomeadamente no envio de forças militares e no acolhimento de “refugiados”, o governo sul-africano do Congresso Nacional Africano (ANC) – antigo delfim de Moscovo, insiste na “mediação”, concretamente da ONU.
Com cerca de 77 mil milhões de rands ( 4,4 mil milhões de euros) em investimentos na Rússia, a África do Sul – que se escusou a qualificar a operação russa de “invasão” -, teme que o impacto do conflito militar possa ter consequências significativas nas relações comerciais e de investimento que tem vindo a construir com a Rússia através do bloco regional BRICS, que juntamente com o Brasil, Índia e a China concentram mais de 40% da população total do planeta e, juntos, respondem por 15% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, ameaçando retirar dos Estados Unidos, União Europeia e Japão, o dinamismo da economia mundial.
Por outro, o impacto na segurança da estabilidade alimentar mundial afetará também o comércio agrícola significativo entre o continente africano e a Rússia e a Ucrânia de mais de 7 mil milhões de dólares.



