Opinião: O bj e o abç
Quem nunca enviou “bjs” em vez de beijos, ou um “abç” no lugar de um abraço, que atire a primeira pedra! A escrita abreviada que passámos a empregar quando nos comunicamos pela via digital tem suscitado apreensão entre os linguistas. Estará a língua a ficar mais pobre?
A Internet converteu-se num laboratório de jargões, onde a linguagem rápida e os argumentos sintéticos encontram terreno fértil. Tornou-se vulgar manifestar emoções através de emojis, ou ainda trocar palavras completas por abreviaturas: “k” em vez de “que”, “vc” em vez de “você”, “hj” em vez de “hoje”, “obgd” em vez de “obrigado”, “tb” em vez de “também”, “fds” em vez de “fim-de-semana”, “n” em vez de “não”, LOL (laughing out loud) para demonstrar que se acha alguma coisa engraçada… Também se encontrou o caminho das palavras mais curtas ao trocar letras com som semelhante, como o “x” em vez de “ch”: “xegas” em vez de “chegas, “axas” em vez de “achas”.
Os textos passaram a ser multimodais, ou seja, não têm apenas letras, mas também imagens. A entoação é conseguida prolongando as palavras: “oiiii”, “boaaaaa”. E a pontuação tem vindo a ser suprimida, ao mesmo tempo que a combinação de caracteres serve para marcar um estado de espírito: dois pontos seguidos de um parêntesis formam um sorriso. Por mais estranho que pareça, os sinais de pontuação que conhecemos hoje não existem desde sempre. O ponto de exclamação, por exemplo, foi introduzido na impressão inglesa já no século XV, e chamava-se “sinal de admiração”. Quem sabe se, a curto prazo, não passaremos a ter nova pontuação?
Uma das questões mais sensíveis é a aproximação da escrita à oralidade. Escrever como se fala já foi uma virtude recomendada. Grandes escritores fizeram-no com mestria apreciada. Contudo, ao que parece, esse tempo findou. Hoje traz-nos contrariedades. Em vez do verbo “estar”, muita gente escreve “tar”, tal como “tivesse” em vez de “estivesse”. Aqui sim, a língua está a ficar mais pobre.
Pode parecer um contrassenso, mas a Internet tem promovido, como nunca antes, o uso da escrita. A pandemia e a necessidade de se estar sempre online demonstraram que passámos a interagir mais através da escrita. O problema é que essa escrita foi perdendo qualidade.
Os hábitos de leitura têm vindo a ser derrotados pelos vídeos curtos que auguram ser alternativa para os mais jovens. Mas como pode um vídeo de escassos minutos no Youtube competir com uma obra literária? A verdade é que isso tem acontecido. O imediato compete com o demorado, o sintético compete com o profundo, o ruído compete com o silêncio, a distração compete com a compenetração, a futilidade compete com o fundamental.
Há quem defenda – e eu defendo também – que as mensagens rápidas se reportam ao contexto informal das redes sociais e que, tal como os códigos e abreviaturas dos telegramas de antigamente, o tipo de escrita rápida não contamina a escrita formal.
Já lá vão trinta anos desde que foi enviado o primeiro SMS, em 1992. Nessa altura, as mensagens eram pagas e tinham limite de caracteres. Por isso, escrever com menos letras tornou-se uma habilidade. Mas a habilidade narcotizou os usuários e gerou dependência, afetando, segundo alguns neurolinguistas, a capacidade de raciocínio. Sobretudo quando as pessoas passam a ter dificuldade em produzir textos mais extensos e mais analíticos. Assim, a simplificação da linguagem e a simplificação do pensamento acabam por estar relacionadas. Mas a boa notícia é que conhecemos o antídoto para a maleita: o hábito de leitura.

