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Opinião: Gestão de declínio

28 de junho de 2021 às 13 h11
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Volto falar de Coimbra, porque há imensas coisas a correr e a cidade e região parecem alheadas de tudo. Não é só a quantidade enorme de fundos comunitários que vão inundar o país, a um ritmo que me parece muito difícil de executar. Nem é somente o PRR que coloca desafios em agendas várias que é preciso mobilizar.

O que me preocupa de facto é a total ausência de objetivos, de propósito e, consequentemente, de planos. Gostava de dizer que vejo alternativas, conscientes dos problemas e a preparar-se para um longo período de trabalho de formiga, necessário para inverter o rumo e colocar a região no caminho certo, mas infelizmente não o posso fazer.

O que vejo é muito palavroso e baseado em aspetos circunstanciais. Não há uma verdadeira ideia alternativa para a cidade e região, o que impede a definição de um rumo que possa ter o apoio de várias forças políticas e, por isso, se transformar em estratégia de médio e longo-prazo.

Um bom exemplo é o que se está a fazer na baixa da cidade com a linha de comboio para Coimbra-A. Aparentemente querem terminar com a linha e substituir pela linha do MetroBus. É um autêntico absurdo, quer logístico, quer estratégico. Do ponto de vista prático, o serviço de comboio serve um fluxo de pessoas que o MetroBus nunca conseguirá acompanhar. Para além disso, substituir uma coisa por outra, para além da perda de eficiência, mostra uma total ausência de estratégia para o local.

Aparentemente, poder e oposição estão de acordo sobre esta alteração. No entanto, aquela zona da baixa da cidade, junto ao rio, tem um enorme potencial, o qual mereceria ponderação. Sempre imaginei que deveria ser um polo de indústria criativas, de várias áreas, que seria muito atrativo dada a sua localização e acesso ao rio. Isso implica um grande investimento em organizar o local para que seja de fácil acesso, muito agradável e tenha transportes eficazes.

O acesso ao rio, como plano da cidade em reganhar o seu rio, seria essencial nesse esforço de organização. Para além disso, é necessário encontrar uma solução para a linha de comboio e para a Estação Nova (Coimbra-A). Eu penso que seria possível manter a linha, com soluções desniveladas, etc., e fazer da Estação Nova um pouco mais do que uma simples estação. Pode ser um centro de negócios, um local de coworking, etc., complementando assim a sua função de estação de comboio que tem, a certas horas do dia, um elevado afluxo de pessoas.

A baixa da cidade tem de ter pessoas e os transportes devem favorecer isso, pelo que vejo com muita preocupação o que se planeia para esse local. Num plano de re-industrialização da cidade e da região, aquela zona da baixa é essencial.Outro bom exemplo, é a rede de transportes.

Entrar na cidade de Coimbra é quase anedótico. As entradas e saídas são terceiro-mundistas, não têm dignidade e revelam uma total ausência de planeamento. Mas circular na cidade não é mais fácil. É essencial que a cidade e região pensam numa rede de transportes que torne fácil, rápida e ecológica a deslocação no interior, provavelmente apostando em transporte elétrico (preferencialmente gratuito).

Tudo isso teria de ser pensado, tendo por base uma certa divisão funcional da cidade e região, mas também a capacidade de regenerar a estrutura urbana, fazendo da região um local bem mais agradável e acessível. Mas nada disso está pensado. Consequentemente, apesar de existirem fundos para financiar, não há nada para executar, porque quem tem de pensar a 20 ou 30 anos, só pensa a dois ou três minutos e não vê mais além do que cinco centímetros do respetivo nariz.

Sem planeamento, sem pessoas a gerir o interesse público que pensam a longo prazo, planeiam e procuram formas de materializar esses planos, viveremos mais umas décadas a discutir a falta de recursos, a total ausência de relevância, o buraco na rua A, o caixote do lixo sujo da rua B, ou ainda o edifício degradado da rua C. É lógica de declínio, gestão da curva descendente, que parece muito interessante para muita gente, mas que todos nós deveríamos ter consciência do resultado a que conduzirá.

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