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Opinião: Ambiente à La Palisse

17 de junho às 12h48
2 comentário(s)

Dependemos do ambiente. Melhor, dependemos de certas condições ambientais. Dependemos deste ambiente, o ambiente que conhecemos, no qual temos vivido. No qual a espécie humana prosperou e prospera. Destas condições ambientais dependemos nós e todos os processos, produções e relações que estabelecemos e que nos mantêm como sociedade. É a economia que depende do ambiente, não o inverso.
Parecem afirmações do Sr. de La Palisse, no entanto, por truísmos que sejam, aparentam ser uma questão estéril. Algo tão fundamental para a nossa qualidade de vida encontra-se manifestamente ausente do debate público. É certo que já deixou de ser algo das margens da política. Que (quase) não há programa eleitoral que não lhe faça uma referência.
É pouco, muito pouco. Podemos correr os diversos programas televisivo de debate político e não encontramos o tema. Não podemos dizer que seja por não ser relevante. Também não será por desconhecimento. Será por ser um tema demasiado técnico? Mas todos esses programas discorrem sobre economia e seus conceitos de tal modo que já se vão tornando familiares ao público [eu próprio já quase que sei o que é o Quantitative Easing]. Percebe-se o interesse, os soluços da economia afectam pessoas.
E os soluços do ambiente, não? Talvez uma das causas seja que o assunto ainda apareça como uma questão à margem dos assuntos sérios, emprego, produção, alimentação, segurança. Daí que proteger o ambiente seja algo percebido como causa nobre, quase altruísta, mas antes temos que tratar dos assuntos sérios. A falácia é essa. Esses temas «sérios» dependem das condições ambientais que, por enquanto, temos. Provavelmente o erro está na caracterização do problema como «crise ambiental» quando poderia (deveria?) ser designada por «crise humanitária».
Não é altruísmo, é egoísmo! O ambiente não é uma entidade que precisa de ser defendida. É o meio em que subsistimos. É a espécie humana, a sua qualidade de vida, o objecto da defesa das condições ambientais.
Os primeiros alertas mais «vocais» para o aquecimento global / alterações climáticas surgiram há um quarto de século. Alertavam para cenários assustadores de incêndios de dimensões sem memória e de frequência crescente, para crescentes fenómenos de tufões, para degelo galopante. E estimavam esses fenómenos para daí a cem anos.
O Mundo teve uma resposta rápida à crise pandémica. Isto porque as consequências são quase imediatas. Melhor ou pior, com mais avanços ou recuos, foi dada uma resposta a diversos níveis, político, hospitalar; técnico, científico, logístico, etc. Com um empenho das várias capacidades da administração pública e não só. E com um escrutínio imenso do público em geral, com interesse nas notícias, com discussão, com os diversos comentadores a abordarem e a explicarem a questão e a defenderem diversos pontos de vista.
Os negacionistas dos auto-designados movimentos pela “verdade” foram ouvidos mas não acriticamente. Foram confrontados com os dados e factos e desmascarados. Ou seja, os jornalistas fizeram também o seu trabalho.
A notícia má é que esta crise pandémica, as suas consequências, em nada se comparam com a magnitude dos problemas ambientais. Da crise das alterações climáticas à crise da perda de biodiversidade, incluindo a crise do desaparecimento de polinizadores. É uma escala completamente diferente, enorme. No entanto as consequências, sendo certas, não são imediatas. Mas quando se notarem já não se irá a tempo. É como quando o paraquedista quando repara que o paraquedas não abriu por estar mal dobrado…
Somos os mineiros a observar o canário a morrer e nada fazemos. Parece que nos esquecemos porque levámos o canário para a mina.
Há solução? Há! Em primeiro falar do assunto, exigir que o poder político o leve a sério, discuti-lo como se discute a pandemia, ter espírito crítico, informar-se, exigir ser informado.
Isto afecta-o a Si!

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2 Comentários

  1. Zzzzzinha diz:

    É isso mesmo, Sr. Mário Reis. Morre o canário. E depois os mineiros, mineiras et al. Mas adiante. A narrativa autofágica ainda se alonga por mais um tempo. Não sei se tanto, a ponto de haver tempo para deixar um sucedâneo mecatrónico auto-organizado.

    Não é por acaso que esta lá está. E é uma afirmação. E é um aviso:
    https://www.lyrics.com/lyric/34174021/Downtown+Bo

    A proprósito Sr. Mário Reis… Du borde inte röka så mycket.

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