Opinião: A gaivota ainda voa?
Quando fizemos o 25 de Abril prometemos voar, porque eramos finalmente livres de viver, de dizer e de sonhar. A canção falava de um povo sofrido, de voz sufocada, bobo-do-rei, que mastigava desespero, não queria que os seus filhos fossem combater e que chorava na sarjeta dos que, à força, tinham vendido esta terra que agora era nossa de novo. Dizia ainda que eramos um povo que cerrava fileiras e partia à conquista do pão e da paz. Eramos finalmente livres de voar, de sonhar e prometíamos não mais voltar atrás. Foi em Abril de 1974, vai fazer 50 anos em 2024.
Sentimento bonito e vontade genuína que foram totalmente traídos. Em 50 anos, invertemos tudo o que então prometíamos solenemente fazer. O país que daria oportunidades a todos, construindo um verdadeiro modelo justo que colocava o foco na capacidade de diferenciação, para gerar valor, e na capacidade de distribuir uma boa parte desse valor, para ajudar os que tinham menor acesso a bens e serviços, nunca viu a luz do dia. A escola pública de qualidade, a saúde de acesso universal, a segurança-social justa a fraterna, a justiça rápida e justa, o acesso a meios de cultura, de forma totalmente livre e sem orientação ideológica, a capacidade de valorizar os que se distinguem, porque isso é necessário para o país progredir e criar valor para distribuir, o salário justo e a capacidade de garantir a cada português um modo de vida digno, tudo isso não passou dos discursos e das intenções.
A classe política criou um sistema para si própria que já muito pouco tem a ver com a realidade dos Portugueses. Tudo funciona em circuito fechado, sem mérito, sem escrutínio, sem avaliação, sem nenhum tipo de responsabilização e, em muitos casos, sem o menor tipo de vergonha. Escândalos sucessivos, envolvendo altas figuras do Estado, em que os contribuintes são roubados em vários milhares de milhões de euros, grave confusão entre interesse privado e interesse público, lesando fortemente os contribuintes, passam sem ser detetados e, quando são, arrastam-se nos tribunais até prescreverem e não poderem dar origem a nenhuma responsabilização e reposição do que foi retirado aos contribuintes.
O país que era finalmente livre de dizer e de sonhar, começou a desmerecer a Escola Pública. Inventou rankings para demonstrar que os mais ricos têm acesso a mais recursos e, portanto, têm em média melhores resultados. Grande inteligência. Já era assim quando a gaivota não voava, mas agora isso é sinal da competência de uns e da incompetência de outros, ao invés de ser uma imagem da nossa total incapacidade de cumprir o que prometemos. 50 anos depois do 25 de Abril o país é mais desigual e mais desequilibrado do que era em 1974. Acentuaram-se as diferenças do litoral para as zonas mais interiores e descobriu-se um fenómeno interessantíssimo num país que, no essencial, é uma grande praia: há regiões que se atrasaram tanto que muitos dos responsáveis do país acham que não há nada a fazer e é preciso “gerir o declínio”. A Escola Pública, que é talvez a nossa maior conquista de Abril, está moribunda.
O país que se sentia bobo-do-rei e não voltaria atrás, aceita que cerca de 70% dos dirigentes da administração pública sejam escolhidos com concursos viciados, isto é, concursos em que se politiza e se reduz o mérito a zero. A mensagem que se passa aos mais jovens é muito simples: não trabalhe e não se esforce, não estude, não tenha opinião e demonstre que faz o que lhe mandam. Inscreva-se no partido e esteja quieto e calado para merecer a “confiança política” do chefe local, do chefe regional e eventualmente do chefe nacional. Mas nunca tenha opinião própria ou faça algum tipo de reflexão. Se sentir falta disso, faça como aqueles que querem ser cantores: opine e reflita no chuveiro. Vai ver que tem sucesso como “pau mandado”.
Finalmente, o país que ia partir à conquista do pão e da paz, está fortemente endividado, não decide o seu trajeto e está enredado em corrupção e interesses estranhos. Por exemplo, Merkel, sempre fortemente criticada em Portugal, comprou a um hacker (por 2 milhões de euros) informação sobre pessoas que, eventualmente, fugiram ao fisco. Em Portugal, um hacker com informação equivalente é preso e a informação considerada ilegal (se calhar destruída), porque ele não é do Benfica. A gaivota ainda voa?



