O SNS: a normalização do colapso
Portugal tem um sistema de saúde universal. Universal no nome, mas seletivo na prática, como uma festa em que todos são convidados, mas a porta só abre para alguns.
Mais de quinze por cento dos portugueses vivem sem médico de família. São idosos que adiam consultas, doentes crónicos que vivem na incerteza e famílias que aprendem a navegar num sistema que parece ter deixado de saber quem serve.
Ano após ano, anunciam-se “reforços históricos”, repetem-se promessas solenes e multiplicam-se conferências de imprensa, enquanto as listas de espera crescem silenciosamente, com a tranquilidade de quem sabe que, em Portugal, o fracasso raramente tem consequências políticas.
Os profissionais de saúde do SNS tornaram-se no último reduto de um sistema que o Estado deixou degradar. Trabalham exaustos, acumulam turnos sucessivos e compensam, com desgaste humano, aquilo que falta em organização, investimento e responsabilidade política.
Muitos não querem o SNS. Preferem o privado, o estrangeiro, ou qualquer outro lugar onde ainda sejam tratados como profissionais e não como combustível humano de um sistema triturador de pessoas.
O milagre não é o SNS continuar de pé; o milagre é ainda haver quem aceite mantê-lo vivo.
As urgências são hoje a imagem mais honesta do país. Ali, o enfarte e a constipação aguardam lado a lado, numa igualdade que a Assembleia da República nunca conseguiu concretizar. Mas, por detrás das pulseiras e das senhas, estão pessoas assustadas, familiares exaustos e horas de espera vividas entre a esperança e a angústia. A triagem decide quem entra primeiro e os restantes esperam horas, noites, por vezes… demasiado tarde.
O setor privado agradece em silêncio, porque cada falha do SNS representa um cliente novo. A degradação do serviço público transformou-se, discretamente, num modelo de negócio extraordinariamente lucrativo.
Os governos sucedem-se com uma estratégia simples: gerir o caos até ao próximo comunicado, distribuir culpas com a mesma eficácia com que distribuem promessas.
O mais inquietante, porém, não é o colapso. É a forma serena como o país começou a habituar-se a ele.
Porque uma nação não morre quando os serviços falham. Morre quando os cidadãos deixam de se revoltar diante a decadência e começam a aceitá-la como destino.
Talvez tenha chegado a hora de um sobressalto cívico: o momento em que um povo deixa de se adaptar ao declínio e decide, finalmente, contrariá-lo.


