A saúde que necessitamosopiniao

Precisa de alguma coisa?

15 de julho de 2026 às 09 h30

No final de 2025, Portugal tinha cerca de 2,7 milhões de pessoas com 65 ou mais anos, quase um quarto da população. Existem hoje 189 idosos por cada 100 jovens, o que faz de Portugal o terceiro país mais envelhecido da União Europeia. Apenas a Itália e a Bulgária apresentam um índice superior.
Na Região Centro, esta realidade é ainda mais evidente. Vivem aqui mais de 480 mil pessoas com 65 ou mais anos, cerca de 27% da população. Há 233 idosos por cada 100 jovens, o valor mais elevado do país. Em apenas dez anos, a população idosa cresceu 17%, enquanto o número de crianças e jovens continuou a diminuir.
Estes números contam uma história. Mas não contam tudo.

Cada um destes números tem um rosto, um nome e uma história. É a senhora que vive sozinha no fim da rua. É o casal muito idoso da aldeia que resiste graças à força com que ainda se ampara mutuamente. É o homem que perdeu a companheira de uma vida inteira e que, por vezes, passa dias sem uma única conversa ou um simples toque à porta. Todos nós conhecemos histórias parecidas.

Envelhecer não é uma fragilidade. Pelo contrário, é uma conquista da sociedade. O problema surge quando essa longevidade é acompanhada pela solidão, pelo isolamento ou pela dificuldade em aceder aos cuidados de saúde e a outros serviços essenciais. Em Portugal, cerca de 650 mil pessoas idosas vivem sozinhas. Uma em cada quatro.

Nos dias de calor intenso, durante os incêndios ou sempre que falta o apoio de familiares e amigos, estas pessoas tornam-se ainda mais vulneráveis. É por isso que o papel da comunidade é tão importante. As famílias, os vizinhos, as juntas de freguesia, as autarquias, as instituições locais e todos nós podemos fazer muito.
Basta, muitas vezes, um telefonema ou uma visita de poucos minutos. Perguntar se há água em casa, se a medicação está a ser tomada corretamente, se existem alimentos suficientes, se a habitação se mantém fresca e arejada ou se é preciso ajuda para ir à farmácia, contactar o médico de família ou ligar para o SNS 24.
Também devemos estar atentos aos sinais de alerta. Confusão, fraqueza intensa, tonturas, dificuldade em respirar, febre, desidratação ou um agravamento súbito de uma doença crónica exigem uma resposta rápida. Nestes casos, o SNS 24 ou, em situação de emergência, o 112 podem fazer toda a diferença.

Mas cuidar dos mais frágeis não pode depender apenas da boa vontade de cada um. A Região Centro precisa de redes locais permanentes que identifiquem e acompanhem quem vive mais isolado, envolvendo cuidados de saúde primários, saúde pública, autarquias, proteção civil, instituições sociais e voluntariado. A solidariedade é indispensável. A organização é fundamental.

Há pessoas que deixam de pedir ajuda porque acham que já incomodaram demasiado. Outras simplesmente resignam-se ao silêncio. É precisamente essas que mais precisam de nós.

Hoje, faça esse gesto. Ligue. Bata à porta. Pergunte: “Está tudo bem? Precisa de alguma coisa? Já bebeu água?”. Fique alguns minutos. Converse sem pressa. Ouça. Às vezes, o maior cuidado que podemos oferecer é fazer alguém sentir que não foi esquecido.
Pode parecer um gesto pequeno. Não é. Para quem está do outro lado da porta, pode significar conforto, segurança, esperança e, por vezes, mudar completamente o rumo de um dia, de uma semana ou até de uma vida.

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