A desigualdade económica: um flagelo persistente do século XXI
Nos últimos 50 anos, a desigualdade económica global tem vindo a registar transformações profundas. Enquanto o mundo registou uma redução significativa das diferenças entre países, a desigualdade dentro de muitos deles aumentou, criando um cenário paradoxal de progresso e desafios persistentes.
Segundo o Banco Mundial, a taxa de pobreza extrema global caiu de cerca de 40% da população em 1980 para menos de 10% antes da pandemia, em grande parte devido ao crescimento rápido de economias emergentes como China e Índia. Como aponta o economista Branko Milanovic, no seu livro- “A desigualdade no mundo – uma nova abordagem para a era da Globalização” – “o século XXI começou com uma convergência económica global sem precedentes, mas a desigualdade dentro dos países mais ricos atingiu níveis inéditos”.
De facto, dentro de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e o Reino Unido, a desigualdade interna aumentou significativamente nas últimas décadas. De acordo com o relatório do World Inequality Lab, os 10% mais ricos nos países de rendimento elevado passaram a deter mais de metade dos rendimentos, enquanto a classe média enfrenta estagnação salarial. O economista Thomas Piketty, um dos principais estudiosos desta temática, reforça: “as políticas fiscais menos progressivas e o aumento do capital financeiro concentraram riqueza no topo, criando novos desafios sociais e políticos”.
Em Portugal, o cenário é de melhoria, embora com desafios estruturais persistentes. O coeficiente de Gini, um dos indicadores mais utilizados para medir a desigualdade na distribuição do rendimento, caiu de mais de 37% nos anos 2000 para cerca de 31,9% em 2024, aproximando-se da média europeia de 29,4%.
Dentro do país, as diferenças regionais também são significativas. A Região de Coimbra, por exemplo, destaca se pelo seu nível de rendimentos: em 2022, o valor mediano do rendimento líquido (por pessoa) na região foi de 10 881 euros, superior à referência nacional de 10 679 euros, situando se entre as regiões com rendimentos medianos mais elevados. Contudo, a igualdade na distribuição de rendimentos não é uniforme. Em 2023, o Município de Coimbra figurou entre os 31 concelhos onde a desigualdade dos rendimentos foi mais elevada do que a média do país, ao lado de grandes áreas urbanas como Lisboa e Porto — um indicador de assimetrias locais que persistem mesmo em áreas com rendimentos relativamente mais altos. Estes contrastes regionais refletem não apenas diferenças nos níveis de rendimento, mas também dinâmicas económicas e sociais distintas em cada território.
Outro elemento crítico a merecer análise é a desigualdade de riqueza. Mesmo com melhorias nos rendimentos verificadas nos últimos anos, os 10% mais ricos em Portugal continuam a ganhar cerca de 7,9 vezes mais do que os 10% mais pobres, refletindo a persistência de diferenças estruturais profundas.
Em termos sociais, embora o risco de pobreza tenha diminuído para cerca de 15,4% da população, um número significativo de pessoas — entre 1,6 e 1,7 milhões — continua a viver abaixo do limiar de pobreza, com especial incidência entre crianças e jovens.
Apesar dos progressos, Portugal ainda enfrenta o desafio de consolidar uma trajetória sustentável de redução da desigualdade, tanto nacional como regionalmente. O reforço da produtividade, o aumento dos salários e a valorização do capital humano, são apontados como estratégias chave para aproximar o País dos níveis de igualdade observados nas economias mais avançadas da União Europeia.
Em conclusão, embora os avanços registados nas últimas décadas, ao nível da economia mundial, demonstrem que a redução da desigualdade é possível, os progressos alcançados estão longe de ser suficientes para garantir justiça social e equilíbrio económico duradouro. A desigualdade económica mantém-se como um dos principais entraves ao desenvolvimento sustentável, fragilizando a coesão social e limitando as oportunidades das gerações futuras.
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Perante este cenário, torna-se imperativo definir metas concretas. Em primeiro lugar, os Estados devem promover políticas fiscais mais progressivas, capazes de redistribuir a riqueza de forma mais equitativa. Em segundo lugar, é essencial investir de forma consistente na educação, na qualificação profissional e na inovação, assegurando igualdade de oportunidades desde a base. Em terceiro lugar, a valorização do trabalho — através de salários dignos e maior estabilidade laboral — deve assumir-se como prioridade central das políticas públicas. Cumulativamente, importa reduzir as assimetrias regionais, promovendo o desenvolvimento equilibrado de todos os territórios e evitando a concentração excessiva de riqueza nos grandes centros urbanos.
Por fim, o combate à desigualdade não pode ser visto apenas como uma questão económica, mas como um compromisso ético e social. Só através de uma ação coordenada entre governos, instituições e cidadãos será possível construir uma sociedade mais justa, inclusiva e resiliente. O futuro dependerá, em larga medida, da capacidade coletiva de transformar crescimento económico em verdadeiro progresso para todos.
