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Um silêncio enternecedor

09 de junho de 2026 às 19 h00

Johnny Depp cumpre 63 anos de vida a 9 de junho de 2026. Entre outras obras marcantes, o ator consagrou-se através da filmografia de Tim Burton, numa ligação que começou com “Eduardo Mãos-de-Tesoura”.

Johnny Depp é um daqueles raros atores que tem o poder de nunca se parecer consigo mesmo, sendo ao mesmo tempo uma figura inconfundível. A capacidade de transmutação entre papéis nem sempre é apreciada, sendo até por muitos considerada como um meio facilitista para obter resultados credíveis. A verdade é que o lado físico de um ator requer trabalho e disciplina, por vezes tanto quanto o esforço mental, sobretudo quando o papel contempla idiossincrasias que só pela forma ou expressão são transmitidas para os espectadores.

No caso de Eduardo Mãos-de-Tesoura, o silêncio é a marca mais memorável. Ao estilo do Exterminador Implacável, Eduardo (Depp) profere um total de apenas 169 palavras durante todo o filme: o motivo não se prende com algo como o lado cool do ciborgue, mas com uma certa incompreensão perante o mundo, resultado da capacidade de Eduardo de renovar o interesse pelo que o rodeia, conservando a possibilidade de se deixar repetidamente impressionar, e sempre com vontade de participar.

A característica deste silêncio enternecedor, que em boa verdade fala por si, surge como uma homenagem mais ou menos óbvia do realizador, Tim Burton, aos tempos do cinema mudo (bem como a Frankenstein), quando o sentimento não vinha tanto das palavras, mas da envolvência da história e da expressão que as personagens deixavam escapar enquanto caminhavam ou reagiam umas às outras. Afinal, representar é reagir.

 

“Johnny Depp é um daqueles raros atores que tem o poder de nunca se parecer consigo mesmo, sendo ao mesmo tempo uma figura inconfundível”

O filme acontece num bairro tido como perfeito: muitas cores, muita luz, nem uma nuvem a passear-se pelo céu, e um cheirinho a felicidade plástica que quase quebra a barreira do grande ecrã para nos entreter as narinas. Creio que é assim que vemos o mundo quando somos pequenos (é este um dos grandes méritos do realizador). Depois crescemos e começamos a calibrar a visão, que vai perdendo a saturação, e funciona como o apetrecho que nos permite dar conta das imperfeições dos lugares, das pessoas, dos momentos.

Eduardo tem tesouras no lugar das mãos, e encontra na arte de cortar cabelos e aparar jardins um propósito, quando tenta ser integrado na sociedade. Ao mesmo tempo, começa a chamar a atenção das mulheres do bairro, e a receber convites para se deixar cair na tentação de ser seduzido por uma mulher alheia, qual perversão da natureza.

Não creio que esta seja uma história moralista; é antes um espelho onde poderemos encontrar, se ao menos olharmos com atenção, os defeitos mais enraizados na essência humana: inveja, maldizer, e por fim também o ódio, que provém dos anteriores. A inveja, quando controlada, pode levar-nos a grandes feitos; porém, se a deixarmos crescer em nós até não caber mais dentro de quem somos, é certo e sabido que o caldo vai entornar. Eduardo é um exemplo cuidadoso e clínico, mas ao mesmo tempo ingénuo, que devíamos seguir para construir o tal mundo melhor, que aqui nos surge como uma impossibilidade.

Apenas Tim Burton seria capaz de atribuir o motivo de um fenómeno meteorológico como a queda de neve a uma personagem tão esquisita quanto este Eduardo: a fantasia e a criogenia da infância são traços que o autor sempre explorou, umas vezes de forma mais eficaz do que outras. Apesar de fazer uso do método tradicional de se contar uma história no cinema americano, rasgou as convenções todas e desbloqueou um mundo ao mesmo tempo belo e macabro, com a quantidade de sombras exata para o tornar visível no meio da escuridão.

 

 

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