O perigo de generalizar sobre outros povos
A par dos traços comuns desenvolvidos por sucessivas gerações nos domínios da história, da língua, da religião, das leis ou dos costumes, um dos instrumentos usados na construção identitária dos Estados-Nação, acentuada na Europa a partir do século XVI, foi a comparação com o comportamento dos outros povos. A sinalização das caraterísticas a estes apontadas recorreu sempre a duas atitudes: uma, maioritariamente negativa ou de incompreensão, vincava as diferenças, enquanto a outra as associava a um padrão consistente e constante, por vezes desenhado como caricatura ou fantasia.
Apesar dos enormes progressos do conhecimento e das comunicações entretanto ocorridos, essa tendência para julgar os demais povos como uniformes, produzida pela ignorância, pelo preconceito e pela distância, foi muito ampliada nos últimos dois séculos. O principal motivo foi a intervenção dos nacionalismos, das ditaduras e dos populismos, que possuem em comum a valorização de hábitos e valores mais próximos, vistos como positivos, em detrimento do que chega de fora ou mora longe, considerado negativo. Foi assim que teve lugar uma diabolização do «estrangeiro» – como ocorre com «estranho», palavra vinda do latim «extraneus», que significa «de fora» –, afirmada na matriz política dos diferentes fascismos, e hoje presente na lógica da extrema-direita.
Daí até à afirmação do preconceito e da incompreensão perante o outro vai um passo, não sendo estes um exclusivo da direita ou da esquerda, mas transversais a grande parte do espetro político. Dando um exemplo que alguns recordarão: no final do Estado Novo, muitos portugueses foram, quando circulavam em países democráticos, tomados como «fascistas» ou cúmplices de Salazar, mesmo sendo muitos deles exilados políticos ou opositores ao seu regime. Recentemente, em parte da comunicação social e nas redes sociais tornou-se mesmo banal o uso de uma linguagem ofensiva para desqualificar outros povos sem atender à sua diversidade e às suas especificidades culturais.
Refiro três exemplos. O primeiro é o do Estados Unidos, desde há décadas, e mais ainda com a agressiva Administração Trump, encarados como fonte de todos os males do capitalismo, da prática constante da agressão imperial e de uma atitude de sobranceria sobre o resto do mundo, quando possuem também uma ímpar tradição democrática e uma imensa diversidade étnica, cultural e política. O segundo é o da Rússia, que ainda há poucos anos, sobretudo após a invasão da Ucrânia por Putin, viu a sua variada e riquíssima cultura ser severamente cancelada e os seus naturais serem insultados, como se o seu povo e a sua história fossem no todo responsáveis pelas decisões da tirania instalada no Kremlin. O terceiro, mais difícil de abordar, é o de Israel. O brutal belicismo do seu governo, exercido em primeiro lugar sobre o povo palestiniano, não pode apagar o trajeto histórico de perseguição ao seu povo, desvalorizar a dimensão democrática do seu regime, única na região, e ignorar a variedade cultural e étnica da sua paisagem humana, parte dela, aliás, laica e progressista.
O perigo de generalizar sobre outros povos teve nas últimas semanas, no contexto do Mundial de futebol, um novo exemplo, traduzido numa vaga global de ódio dirigida contra a Argentina. Como se o Papa Francisco, Che Guevara, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Silvina Ocampo, Quino e Mafalda, o tango, a Livraria Ateneo, o Teatro Colón, ou a honestidade das pessoas comuns, pouco ou nada valessem perante o comportamento destemperado do presidente Milei e a agressividade dos futebolistas da sua seleção.

