Digitais & digitalizadosopiniao

Temos (mesmo) de (voltar a) falar sobre… os exames

23 de julho de 2026 às 10 h45

Tinha muita vontade de não vos escrever sobre os exames mas não foi mesmo possível: é algo que está demasiado “colado” ao que esta coluna tem escrito ao longo dos anos, à teoria e prática dos sistemas de informação e dos seus fatores críticos de sucesso e às boas práticas de transformação digital. Ponto prévio: o Ministro Fernando Alexandre é corajoso e isso ninguém pode negar. Por experiência, sabemos que mesmo que algo esteja e funcione declaradamente mal, ao tentarmos mudar – supostamente para melhorar – estamos a expor vulnerabilidades conhecidas mas também outras que estavam escondidas, novas dificuldades, erros e críticas.

É preciso “estofo” para gerir essas expectativas. Há muitos anos que a metodologia de correção dos exames não mudava. Mal ou bem, funcionava, os prazos cumpriam-se e os estudantes e as suas famílias sabiam com o que contar. Pontualmente, havia preocupações com a dificuldade de um ou outro exame ou com alteração de regras de exames a realizar para acesso ao Ensino Superior, como foi o caso do ano passado. E isso leva-me ao ponto seguinte: quanto mais não fosse por todas as dificuldades sentidas no ano passado no Acesso ao Ensino Superior(provas supostamente de elevado grau de dificuldade, menos estudantes concluíram o 12.º ano, exigência de 2 provas para candidatura e muitas escolas de Ensino Superior, em particular Politécnico, perderam mais de 20% dos seus colocados), o Senhor Ministro não devia ter realizado esta mudança este ano: aprendemos no 5.º ano em Ciências da Natureza que, usando o método científico e para se saber o efeito que a alteração de uma variável tem num sistema, devíamos mudar apenas uma variável de cada vez…

Ainda assim, mudou-se, rompendo com uma metodologia onde se alterou Infraestrutura, Processo e o papel dos diversos agentes envolvidos (Pessoas), alicerces da Transformação Digital. Não conheço os detalhes sobre o desenvolvimento do projeto e acredito que tenha seguido as boas práticas.

Na verdade, em Sistemas de Informação, é obrigatório mapear os requisitos, como funciona o processo antes da mudança (“As-Is”) e como se pretende que seja (“To-Be”), e, nessa transformação, ainda na fase de análise, há que garantir que se conseguem identificar os riscos e gerir a mudança.

Mesmo num cenário em que tudo funcionasse bem, era fundamental perceber como se migraria de um sistema para o outro, garantindo que o sistema se baseia em infraestrutura robusta, defende a segurança dos dados e que há governação do sistema e das tecnologias da informação, em particular, atendendo à complexidade envolvida. Creio que certamente existiram testes exaustivos (garantia da qualidade) e uma auditoria (pelo menos interna) ao novo sistema, o que, ocorrendo, ajudaria a mitigar potenciais riscos.

Finalmente, é inegável que se deram passos para que nos aproximássemos dos países onde a digitalização dos exames já existe. Todavia, ao tentarmos essa aproximação, esquecemo-nos de toda a preparação prévia que qualquer mudança deste tipo prevê e das óbvias diferenças culturais. Afastarmo-nos do papel não evitou que os envelopes tivessem de ser abertos e validados, cada uma das folhas de papel tivesse de ter sido digitalizada, numa das 70 máquinas adquiridas para o efeito, certamente sob a supervisão de pessoas, que as equipas do serviço de exames realizassem longas maratonas, que professores classificadores estivessem demasiados dias à espera de ter acesso aos exames na plataforma, que a plataforma não guardasse devidamente os registos, que exames de estudantes distintos se misturassem…

Valeu a pena ser corajoso? Essa coragem já tinha começado pela criação de um super-ministério agregando todos os graus de ensino, do pré-escolar ao ensino superior, pela alteração de um grande número de regulamentos e plataformas que garantem o funcionamento de cada um dos ciclos de ensino. Saberemos se valeu a pena quando houver dados finais sobre o sucedido: quantos erros reportados, provas reapreciadas, alunos afetados, horas de professores, dias perdidos, calendários modificados e atrasos nas colocações no Ensino Superior. E não tendo esses riscos sido este ano suficientemente mitigados, o que se aprendeu e como funcionará o sistema no próximo ano?
Boas férias!

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Digitais & digitalizados

opiniao