Ciência e Inovação: a última fronteira
Durante muito tempo, as políticas públicas nacionais organizaram a ciência e a inovação como se estivessem em silos distintos, separando a investigação da economia ou, se quisermos, o conhecimento da sua utilidade e aplicabilidade. Os sistemas de avaliação, do lado da ciência, privilegiaram a produção científica – artigos, citações, projetos de investigação fundamental – enquanto a economia pedia novos produtos, patentes, novos spin-offs e, com isto, impacto económico.
Sabemos que em Portugal se produz ciência de qualidade, mas continuamos a ter dificuldades em transformar conhecimento em produtos, processos, patentes e criar empresas de base tecnológica. Os indicadores demonstram uma evolução notável na produção científica, reconhecida internacionalmente; contudo, continuamos a enfrentar dificuldades em transformar conhecimento em valor. O chamado “Vale da Morte” entre a investigação e a aplicação continua a ser uma das maiores fragilidades do ecossistema nacional.
Hoje sabemos que o mundo mudou, talvez mais depressa do que esperávamos, e esta divisão faz cada vez menos sentido. Torna-se muito ténue a linha que separa a fase em que nascem as tecnologias mais disruptivas. Não será na ciência nem na inovação, mas sim na interseção entre ambas. A maioria dos novos desenvolvimentos começa muitas vezes num laboratório de uma universidade ou centro de investigação, evolui através de projetos colaborativos, é demonstrada em contexto próximo da realidade e cria impacto quando chega ao mercado.
Neste sentido, a recém-criada Agência para a Investigação e Inovação – AI², resultante da fusão da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia com a ANI – Agência Nacional de Inovação, poderá ajudar a diluir esta diferença no futuro. Apresentada precisamente como um instrumento para procurar aproximar ciência, inovação e economia, pretende garantir uma integração mais eficaz desde a investigação fundamental até à inovação de mercado. Naturalmente, existirão tensões e o risco de que esta fusão signifique subordinar a investigação às necessidades de curto prazo do mercado. E não resolverá, por si só, todos os desafios, mas representa um sinal importante e uma necessidade de manter a investigação fundamental, ao mesmo tempo que se garante que o conhecimento chega à economia real.
No Encontro Ciência e Inovação 2026, realizado a 15 e 16 de julho, a primeira edição a juntar estes dois mundos e que ficará certamente marcada como um momento de transição, houve um exemplo que ilustra bem esta nova fronteira entre ciência e inovação. No discurso de abertura, o novo presidente da AI² recuperou a história de Claude Shannon, o matemático que, em 1948, publicou um trabalho científico que veio a mudar o mundo. Quando muitos engenheiros acreditavam que a única forma de comunicar em canais com ruído era aumentar a potência do sinal, Shannon demonstrou matematicamente que a informação – som, imagens ou vídeo – podia ser representada em zeros e uns, em bits. Parecia uma ideia abstrata, mas foi dessa abstração que nasceram as comunicações digitais, os computadores, a internet, os telemóveis, a inteligência artificial. Sucede que Shannon era doutorado pelo MIT, mas trabalhava na empresa de comunicações AT&T e esse pormenor mostra que a investigação fundamental pode ser estimulada por desafios das empresas. E pode acontecer numa universidade, numa empresa ou num centro tecnológico. Será por isso que um dos chatbots de IA mais populares atualmente tem o nome “Claude”, em homenagem a Shannon.
Um conceito que atravessou alguns dos debates deste encontro foi onde termina a ciência e começa a inovação. A resposta parece ser: já não se sabe ao certo. E talvez isso seja uma boa notícia.
Boas férias!

