Porque não escrevo sobre Coimbra
O título desta crónica contém um equívoco intencional. A verdade é que até tenho escrito bastante, no formato da crónica ou em artigos e livros de história, sobre a cidade onde assentei no outono de 1969, chegado para concluir o secundário.
Foram muitas páginas sobre a história de Coimbra na relação com o ativismo político estudantil, com os movimentos sociais anteriores ao 25 de Abril ou que o acompanharam, com pessoas e grupos que nela resistiram ao Estado Novo e à Guerra Colonial, com organismos e práticas culturais da academia.
Também sobre formas de olhar e de viver a cidade, episódios da sua memória coletiva, a nostalgia que tantas vezes a envolve ou limita, ocasionalmente escolhas da política autárquica ou vivências pessoais.
Porque escolhi então um título enganador? A razão da minha escolha advém do distanciamento, desde o início, da imagem de uma certa Coimbra, em mudança, mas ainda hegemónica, assente numa perspetiva tradicionalista, passadista e fechada sobre si própria que não é a minha, encarando-a antes como cenário diante do qual acontecem dinâmicas muito mais estimulantes e mobilizadoras. De facto, a abordagem da cidade que fui mantendo na escrita pública foi sempre determinada pelo modo como a vi desde o primeiro dia. Sem previsão de que essa leitura venha a mudar.
Quando cheguei, vindo da pequena vila beirã onde nasci e fui criado, trazia o lastro de um espaço onde, naquela época, a vida era repetitiva, hierarquizada e vigiada. Logo, o encontro com a cidade – apesar de esta ser então a metade do que é hoje, vista à minha escala com uma dimensão de “megapolis” – foi como o de percorrer a uma estrada imensa, aberta a uma imensidão de possibilidades e geografias. Por isso, à primeira crónica que há catorze anos escrevi para este jornal, dei como título «Coimbra, cidade aberta». Este tinha como referente o do filme de Roberto Rossellini sobre a Roma do final da Segunda Guerra Mundial, quando o fascismo estava prestes a cair, tornando-a palco dramático da luta resistente pelo fim da ocupação nazi e pela conquista da liberdade.
Com alguma sorte, as primeiras pessoas que conheci em Coimbra foram poetas, artistas e militantes pouco convencionais, gente que agia e pensava como se vivesse em Paris, Londres ou Nova Iorque, alimentando a perspetiva de um lugar que, apesar da censura e da moral conservadora, servia de plataforma para a descoberta de um mundo sem barreiras. Jamais deixei de ver assim este lado da cidade, o mesmo tendo acontecido com sucessivas gerações de estudantes como eu.
Dos rapazes da Geração de 70, Antero à cabeça, que acorriam à estação ferroviária para ver em primeira mão os livros chegados no Sud-Express, aos rapazes e às raparigas que, já na segunda metade do século vinte, tratavam por tu Marx, Brecht, Breton, Sartre, Camus, Godard, Bergman ou Foucault, integrando-os na vivência de uma “polis” maior e mais aberta que a do mapa físico.
Por isso tantos têm rejeitado, e outros mais continuam a rejeitar, uma Coimbra fechada, associada à cantilena das tradições repetidas, ao conformismo, ao elitismo, ao machismo, às anedotas requentadas sobre estudantes estroinas e professores anacrónicos. Uma cidade que permanece demasiado amarrada ao passado, por alguns insistentemente olhada com saudade e “encanto”.
Felizmente existem outras “Coimbras”, menos repetitivas e enfadonhas. Em especial aquela cosmopolita, culta, democrática, resistente, moderna, “cidade aberta” onde continua a ser possível rasgar horizontes de um mundo melhor e mais feliz. É esta que me interessa, e sobre a qual gosto de escrever.
