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Projeto Balance – Equilibrar emoções, transformar vidas

31 de dezembro de 2025 às 12 h23
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Não é meu hábito, mas hoje vou fugir às linhas gerais das Opiniões que aqui trago mensalmente, para tratar de um problema de saúde grave que, ainda por cima, não é da minha área de especialidade médica. Pode parecer pouco apropriado, mas as razões deste desvio tornar-se-ão evidentes mais adiante.
A adolescência é uma fase crítica no nosso desenvolvimento emocional, social e psicológico. Dados recentes mostram um crescimento significativo dos casos graves de ansiedade depressão, automutilação e outras questões de saúde mental entre adolescentes. Metade das perturbações de saúde mental começa aos 14 anos, mas muitas não são detetadas nem tratadas. Em Portugal, quase 31% dos jovens têm sintomas depressivos. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos em todo o mundo. Os psicólogos dizem que estes números são preocupantes. A falta de informação, o estigma e a ausência de espaços seguros agravam esse cenário.
Os sinais de alerta nem sempre são fáceis de identificar nas crianças e jovens, e incluem: humor irritável, frustração ou raiva excessivos, tristeza persistente, dificuldade em relaxar ou em participar em atividades antes apreciadas, mudanças comportamentais, como isolamento ou agressividade, sinais de ansiedade ou depressão e baixa autoestima.
A escola é, na maior parte dos casos, o local onde se revelam os primeiros sinais de perturbação. É fundamental estar atento a estes sinais, promover um ambiente de apoio e comunicação aberta em casa e na escola, e procurar ajuda profissional quando necessário, pois muitos dos problemas que começam na adolescência podem ter consequências a longo prazo.
É aqui que entra o Projeto Balance, financiado pelo Programa Cidadãos, Igualdade, Direitos e Valores (CERV), da União Europeia, lançado em 2021, com a duração de 7 anos. O projeto surge para fortalecer a saúde mental dos jovens entre os 13 e os 18 anos, por meio de ações educativas, acolhimento e práticas integrativas. O nome Balance comunica a ideia de equilíbrio, autoconhecimento e resiliência emocional, pelo que lhe poderíamos associar o slogan “Equilibrar emoções, transformar vidas”.
Através de uma metodologia diversificada, que inclui sessões de formação, workshops, oficinas de teatro e grupos de discussão, o Projeto pretende aumentar a sensibilização, fomentar a confiança e facilitar a aprendizagem entre pares sobre temas de saúde mental.
Destina-se a jovens, famílias e educadores/monitores, na Catalunha (Espanha) e em Coimbra e tem como objetivos específicos: sensibilizar jovens sobre saúde mental, emoções e autocuidado; reduzir o estigma em torno dos transtornos mentais; criar espaços seguros de escuta e apoio; incentivar práticas que promovam o equilíbrio (como meditação, arte, desportos, escrita, etc.); e formar multiplicadores (jovens líderes e educadores).
O Projeto tem ainda os responsáveis e profissionais da saúde e da educação, e as famílias como público secundário. Os principais resultados incluem a realização de dois Fóruns de Saúde Mental para Jovens, recomendações de advocacia para o apoio à saúde mental de crianças e adolescentes, e uma análise dos serviços de apoio digitais existentes dentro desta área.
O Balance irá envolver mais de 200 participantes em Portugal, incluindo jovens dos Centros de Apoio de Tempos Livres (CATL) da Cáritas Diocesana de Coimbra (a que tenho a honra de presidir, daí que aborde este assunto), técnicos e famílias. Os resultados que daqui advierem poderão, eventualmente, ser aplicados noutras respostas sociais, como no Centros de Acolhimento Temporário (CAT) e nos Lares de Infância e Juventude (LIJ), que albergam jovens com perturbações mentais e de personalidade. Mas podem e devem ser generalizados ao comum das famílias com membros nesta faixa etária.
Para as crianças e jovens serem ajudados, é preciso que os pais (e avós) ou cuidadores estejam dispostos a ajudá-los. Podemos dizer, assim, que estes são a “matriz” de referência inicial das crianças. O papel da família é também fundamental para que as crianças e jovens se sintam seguros. Em complemento, a comunidade escolar deve estar atenta. Geralmente, as crianças e jovens não desabafam com os pais.
Todos temos um papel importante a desempenhar na prevenção e/ou solução deste problema.

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