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Os primeiros passos – parte 1 Portugal/Espanha – 1980’s

10 de junho de 2026 às 16 h16
“Uma grande viagem começa com um pequeno passo”, lembrava Lao Tse, ao mostrar-nos que tudo na vida tem um princípio, por mais insignificante que possa parecer. As andanças por este mundo fora também. Todos temos uma primeira vez. Tinha três anos, e estava com a minha família no Cume, uma aldeia da Lousã, onde tínhamos um pinhal. Do nada, algo que nunca soube explicar me terá passado pela cabeça e me fez fugir dali a todo o vapor, por uma estrada estreita e esburacada, muito diferente da que encontrei anos mais tarde quando aí fui recordar o local do crime. Instalou-se o caos, com toda a gente a correr atrás de mim, seguindo o meu cabelo louro no meio da vegetação esverdeada na vã esperança de me apanhar, uma proeza só conseguida pela minha mãe, seguida do salutar par de estalos para de dissuadir de futuras reincidências. Ainda a chorar, expliquei-lhe que a minha ideia era vir a casa buscar uma gadanha pequena, proporcional ao meu tamanho, para assim os poder ajudar. Mas o que eu não tinha reparado é que tinha estabelecido o meu itinerário de fuga precisamente na direção oposta. Talvez fosse um acto falhado freudiano de quem queria seguir em direção ao resto do mundo.
A ideia de sair de casa para ir passear era-me omnipresente. Desde cedo que ouvia as histórias do meu pai, nascido em 1916, ainda nos tempos duros da Grande Guerra, a contar-me as suas histórias das andanças por uma Espanha recentemente saída de uma violenta guerra civil em finais da década de 30. Nunca saiu da Península Ibérica, mas mostrou-me como, para ter muitas e boas memórias para contar não é preciso ir para o outro lado do globo. Era um livro de História pois a sua vida confundia-se com o século XX quando falava da sua vida perante um filho que, ainda pequeno, já queria ser professor de História. Devo-lhe muito.
Nos tempos das excursões de autocarro fiz a minha primeira saída de solo nacional. Estava em Valença, e fui a pé pela extensa e já secular ponte metálica que ligava a Tuy. Estava cheio de medo pois nos meus seis anos de vida nunca tinha atravessado um rio tão grande, evitando olhar para a enorme corrente que me ameaçava engolir ao mínimo percalço. Era duro o caminho.
Nestes tempos em que ainda havia fronteiras, chegámos finalmente à outra margem e tudo me soube a vitória, ou superação. Talvez nesse momento tivesse sentido que o meu destino estivesse assim traçado. Continua.

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