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Os primeiros passos (parte 2) Portugal – Década de 90

12 de junho de 2026 às 11 h10

O momento em que recebemos a primeira bicicleta é um marco na nossa vida. Pelo menos assim o foi na minha, quando a minha família me prendou com uma BMX. A década de 90 estava a começar, e fui bafejado pela sorte de ter vivido num tempo em que as crianças eram livres de andar na rua até tarde, ou de os pais não terem a neurose de querer saber constantemente onde os filhos se encontravam.

Toda a vizinhança da minha geração tinha a sua bicicleta, e cedo começámos a dar as nossas voltas pelos carreiros e pinhais da nossa Lousã. Sabia-nos a uma viagem até aos confins do mundo, pelo menos daquele que tínhamos conhecimento. Parávamos onde sentíamos que, para a altura, estávamos já “muito longe” de casa. Mas a verdade é que no dia seguinte já estávamos a quebrar mais uma fronteira, um gesto que se repetiria vezes sem conta.

Os amigos da escola começaram aí a fazer parte da minha vida, numa relação de amizade próxima, familiar mesmo, que perdura até hoje. Além de pedalar, começámos também a caminhar pela Serra da Lousã. Nos tempos livres, saíamos de casa logo pela manhã com uma pequena mochila onde levávamos umas sandes, uma peça de fruta e o obrigatório cantil de água. Subíamos pela ribeira de São João, íamos para zonas menos batidas, explorávamos as aldeias serranas, ex lybris agora tão em voga, mas que, na altura, ninguém queria saber. Foi uma vitória memorável a primeira vez que chegámos ao Trevim, que nos soube como um atingir o topo do Evereste.

A nossa natureza levava-nos a sair da nossa terra. Teríamos uns catorze anos quando pegámos nas bicicletas e seguimos para Miranda do Corvo, um feito já fora do comum para a maioria da rapaziada da nossa idade. Mas sabia-nos a pouco, pelo que continuámos na direção de Penela. Ao visitar o castelo, ficámos surpreendidos ao ver o quão longe estávamos da nossa serra, que nos espreitava ao fundo do horizonte. Mesmo assim, quisemos continuar para Conímbriga, uma chegada premiada com uma entrada gratuita na estação arqueológica quando os funcionários perceberam a epopeia que estávamos a viver.

Condeixa estava mesmo ali ao lado, e percebe-se qual a continuação do percurso, mas quando conquistámos mais essa etapa, a grande questão colocou-se. “Regressamos já a casa?”. O coração, ou a inconsciência falaram mais forte, e tomámos a decisão menos ortodoxa. Seguimos pela Nacional 1 para Coimbra.
(continua)

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