A viagem maior Coimbra-junho 2026
Há muitas formas de viajar, mas as mais marcantes são as que têm um bilhete só de ida. O Outono trouxe-me a novidade de que viria a ser pai. Saltando umas quantas etapas, inicio esta narrativa no momento em que chego às urgências da Maternidade Daniel de Matos.
Após uma observação do estado da arte, deu-se indicação para seguir para a sala de parto. Foi o momento da materialização de tantos sonhos e anseios. Senti-me a entrar noutra dimensão quando subimos o elevador para o primeiro piso. Era como deixar a Europa e aterrar noutro continente. Abria-se uma nova mundividência.
Tudo se desenrolou sob a mestria de duas enfermeiras parteiras, por vezes acompanhadas pelo médico obstetra, que tão bem facilitaram todo o processo natural para que um ser viesse ao mundo. Senti à minha volta a precisão de um relógio suíço, fazendo jus ao profissionalismo de todos os intervenientes. Este feliz episódio deve ser sublinhado nestes tempos em que se diaboliza, sabe-se lá por que razões, o Serviço Nacional de Saúde com notícias sensacionalistas da desgraça alheia que hoje se generalizaram em prol das audiências.

Celebra-se assim a vida diante dos meus olhos, perante o suspiro de quem superou um duro desafio. Sai-se de uma sala e sobe-se para outro piso. Uma maca desliza até ao fundo de um corredor, onde se abre uma porta que será o refúgio nos próximos três dias. Toda a vivência se reduz agora a quatro paredes de um quarto na maternidade.
O apego ao lar fala mais alto. Recebe-se com alívio a alta hospitalar e arruma-se o pouco que se tinha já que era momento de regressar a casa. Sob uma condução tensa como nunca tive, com medo que algo acontecesse a um pequeno ser que agora levava comigo, ouvíamos os três “Nasce Selvagem”, dos Resistência quando vemos a nossa vila da Lousã ao fundo, com a serra a coroar o horizonte.
Chegava a uma casa e nem sabia por onde começar. Olho este recém-nascido, para os seus olhos ainda baços, e estendo-lhe a minha mão direita, que ele, de olhos cerrados agarrou energicamente. A vida prenda-nos com certas ironias. Se, há treze anos atrás, a última vez que o pai comunicara comigo foi a apertar a minha mão, enquanto estava internado num hospital de onde já não saiu com vida, aqui seria o inverso. Foi uma outra leitura que fiz de José Saramago, quando escreveu que “o fim de uma viagem é apenas o começo de outra”, agora que os papéis são outros. A viagem começou agora.

